A esperança além da fronteira

Por André Gobi e Guilherme Rodrigues

A crise política e humanitária que assola a Venezuela tem feito com que muitos de seus habitantes busquem refúgio em outros países, e o Brasil é um dos principais destinos tanto do povo venezuelano, quanto de outros vizinhos latino americanos. Diferente do que é costumeiramente apresentado e se faz pensar, a maioria dos imigrantes (e refugiados) não é de necessitados e despreparados. Com alto nível educacional, vontade de trabalhar e tino empreendedor, podem ser uma ferramenta chave para fomentar a economia brasileira.

Ainda é metade da tarde quando as barracas de comida da feirinha em meio a uma das praças da Unicamp começam a ser desmontadas e o movimento, que era intenso há poucos minutos, começa a dar lugar a uma calmaria típica do pós-almoço, ainda sob o aroma das várias culinárias distintas espalhadas pela praça e em meio ao português, espanhol, inglês, francês e outras línguas que fazem do espaço um pequeno centro cosmopolita.

Enquanto desmonta a barraca que serve comidas típicas de seu país de origem, Elio Labrador, venezuelano de La Guaira e que vive no Brasil há três anos, atende aos últimos clientes. Diferente de muitos compatriotas que têm cruzado a fronteira nos últimos meses, Elio chegou ao país para tentar fazer seu doutorado em Educação Física. Veio junto da esposa e um dos dois filhos. O caçula tem poucos meses e é nascido no Brasil. A companheira, Ivana Camejo, também veio para estudar e faz seu doutorado no Instituto de Biologia da Unicamp. Ambos eram professores na Venezuela.

“Trabalhei treze anos dando aulas de Educação Física no Liceu, e minha esposa dava aulas formando professores”, recorda Labrador que, embora tenha chegado com o visto de estudante, hoje se mantém no país com o aval de refugiado, uma vez que em um primeiro momento não ingressou no doutorado. “Se possível, ainda quero terminar meus estudos aqui”, projeta, logo em seguida.

Ivana e Elio: aprimorando os estudos e movimentando a economia local. Crédito Imagem: Elio Labrador

Ainda que as circunstâncias da vinda de sua família sejam diferentes das que assolam os novos contingentes de venezuelanos atravessando a fronteira nos últimos meses, o motivo pelo qual desejam permanecer no país é o mesmo: uma melhor condição de vida. Não encontrando trabalho na área de sua formação, viu-se na necessidade de exercer outras atividades e atualmente trabalha como garçom e, junto da esposa, comercializa comida típica venezuelana na Unicamp e em sua residência, já um local bem conhecido por aqueles que apreciam arepas, empanadas, tequeños e outras iguarias.

Como a situação financeira na Venezuela tem se agravado, voltar à terra natal não é uma opção no momento. “Além dos estudos, gostaria de impulsionar nosso negócio com as comidas. Por enquanto não dá para voltar. O salário mínimo na Venezuela não permite nem comprar um pneu para um carro. Com o salário não dá para você sequer manter um veículo e muitas vezes nem para comer, por exemplo”, justifica Labrador.

De acordo com João Carlos Jarochinski Silva, professor doutor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima e pesquisador de migrações internacionais, há uma grande capacidade laboral em meio a este contingente imigrante. “Parte significativa dos venezuelanos têm ensino superior, uma vez que este é mais popularizado na Venezuela do que no Haiti, por exemplo. Então há um potencial a ser explorado e, apesar de ser uma migração forçada, é um público que busca trabalho. Dentro do cenário latino-americano, vejo o Brasil com a melhor condição de recepção (para os imigrantes)”, pontua Jarochinski, que ressalta que a capacitação dessa mão-de-obra não teve nenhum custo para o país e que pode auxiliar no crescimento econômico e sua manutenção. “É uma população cujo curso superior não teve custo algum para o Brasil e pode gerar potencial de crescimento e desenvolvimento, então cabe que o Brasil saiba aproveitar”, completa o pesquisador.

A Feira da Unicamp é um ponto de encontro de diversas nacionalidades. Crédito Imagem: Google.

A poucos quilômetros do campus da universidade, em seu restaurante com várias alusões ao Haiti e embalado pela Kompa – um popular ritmo caribenho – em volume suficiente para atrair outros compatriotas, Maurice (nome fictício) diz que foi muito bem recebido no Brasil. Chegou aqui há seis anos, cerca de dois anos depois do terremoto que devastou seu país em 2010, no qual perdeu familiares e amigos na capital, Porto Príncipe. Embarcou na aventura brasileira e se estabeleceu em Campinas após convite de um amigo haitiano que já estudava e vivia na cidade. É perceptível a dificuldade com o português, já que sua língua de origem, o francês creole, tem muitas diferenças em relação à nossa. Mesmo assim, a conversa flui bem. Assim que conseguiu se estabilizar no novo lar, retornou ao Haiti e trouxe a esposa.

Diferente da recente onda migratória venezuelana, o caso haitiano é mais antigo e intenso, segundo o professor Jarochinski. “Os haitianos têm uma tradição migratória muito mais intensa, já com uns cem anos de migração para outras localidades, que cria uma cultura no sentido da fácil adaptação e a perspectiva de criação de renda de uma maneira muito dinâmica, com uma grande capacidade de avaliar cenários e identificar onde há oportunidades e mapeá-las”, explica.

Maurice personifica esta colocação. Ex-professor de Matemática no Haiti, há dois anos, com mais dois amigos haitianos que o acompanharam ao Brasil, abriu seu próprio negócio, o restaurante que também serve como ponto de encontro para outros haitianos talvez poderem amenizar uma possível saudade da pátria.

“Estávamos sempre pensando em alguma coisa pra fazer, executando reformas de cadeiras, mesas que guardei pra fazer algo com elas. Depois, começamos a procurar locais para alugar e abrimos (o restaurante)”, diz Maurice, servindo de porta-voz para os outros sócios. Atento ao mercado e aos negócios, diz que a intenção no momento é permanecer no Brasil, mas não descarta buscar outros países. “Por enquanto quero ficar, mas não sei mais pra frente. Depende, porque o Brasil está em uma crise, a economia está baixa, então está um pouco complicado”, pontua, alegando que o movimento no restaurante caiu devido ao momento econômico.

Motivação vai além de desastres naturais e econômicos

Em volta da mesa de jantar, encontram-se dois casais peruanos e seus filhos. Julio Mallqui e Mery Vilela chegaram ao Brasil há mais de 18 anos, depois de uma jornada de ônibus, a partir de Lima, que durou dois meses. Na época, Mery estava passando por uma gravidez de risco de seu primeiro filho e o casal decidiu fazer a viagem em etapas. Ronal e Patricia, outro casal peruano, chegaram há menos tempo, pouco mais de um ano, acompanhados de seus três filhos, um deles com apenas um ano e meio de vida. Ainda não falam nada de português. Vieram já de avião, em uma outra realidade e em um contexto nacional, se comparado com o de Julio e Mery, muito mais preparado para o recebimento de imigrantes. Julio e Mery conseguiram o visto de permanência, pois seus dois filhos nasceram no Brasil. Ronal e Patricia ainda utilizam o visto de turista, mas devido a acordos entre países integrantes do Mercosul, é possível que consigam seu visto de residência sem muitos entraves.

O que há em comum entre os três dos quatro casos relatados? O empreendedorismo. Julio Mallqui explica: “O peruano tem uma experiência maior, em sua totalidade, como trabalhador autônomo e isso é muito bom aqui no Brasil. É uma questão cultural (trabalho autônomo), pois no Peru são poucas as oportunidades de trabalho com carteira registrada. Aqui se abrem as portas”.

Julio e Mery são comerciantes há onze anos em um shopping de artesanatos na cidade de Pedreira (SP). Crédito Imagem: Pau a Pique Produções

Outro fator muito comum relatado pelos pesquisadores consultados e constatado pela reportagem é o alto grau de escolaridade desses imigrantes. Praticamente metade dos entrevistados têm nível técnico ou superior de ensino. Infelizmente, o Brasil não consegue se aproveitar desse alto grau de ensino dos imigrantes. Luís Felipe Aires Magalhães,  pesquisador do Observatório de Migrações do Estado de São Paulo e Santa Catarina, explica. “Recém substituímos o Estatuto do Estrangeiro, marco regulatório sobre migrações herdado da Ditadura Militar (Lei 8.615, de 1980) que enquadrava o imigrante na Lei de Segurança Nacional e não lhe permitia o exercício da participação em organização política e sindical. Isso contribuiu a uma sociedade pouco acolhedora com imigrantes, especialmente para aqueles de composição étnica historicamente subalternizadas e discriminadas em nosso país, como indígenas e negros. Vigora, ainda, ausência de políticas públicas específicas a imigrantes, capazes de promover a acolhida humanitária e inserção laboral e social dignas. Também a falta de articulação entre as diferentes esferas de governo resultam em uma situação de abandono, não reconhecimento e marginalização de imigrantes em nossa sociedade.”

É decorrente deste despreparo para receber os imigrantes que o governo brasileiro enfrenta a questão militarizando a recepção aos refugiados, principalmente aos venezuelanos que estão chegando em grandes fluxos na fronteira de Roraima. Jarochinski esclarece: “Como se trata de um assunto cívil, e se trata também de uma acolhida humanitária e como não é um tema de defesa, um tema de segurança, acho que a própria atuação do exército deveria estar subordinada à casa civil, e hoje quem acaba tendo um protagonismo é o Ministério da Defesa. E isso é ruim porque quando você envolve a defesa, o exército, você transmite uma mensagem, não explícita, mas implícita no sentido de que você está lidando com uma ameaça e não é esse o caso”.

Definitivamente, ameaça não foi o que os entrevistados apresentaram, mas sim admiráveis atos de coragem e bravura em busca da sobrevivência. Pessoas que que deixaram tudo para trás buscando maneiras de ajudar os que ficaram, suas famílias que vêm junto, ou até mesmo nossa sociedade.

Ronald, Patricia e o pequeno Natan, que veio do Peru ainda com um ano de idade. Crédito Imagem: Pau a Pique Produções

Ronal, Patricia, Mery e Julio falam das oportunidades que só o Brasil pode oferecer a seus filhos. Maurice, com seu empreendedorismo e como dessa maneira recomeçou a vida e pode ajudar quem ficou no Haiti. Elio e Ivana, além de empreendedores, querem estudar e colocar em prática seu conhecimento em favor da comunidade. Aires Magalhães é preciso neste ponto. “O conhecimento técnico, profissional, científico e cultural de imigrantes e refugiados pode e deve ser aproveitado e canalizado para avanços sociais, econômicos e políticos no Brasil: sua capacidade de resistência, de criação de ideias, de negócios e oportunidades de trabalho são as provas disso”, aconselha o pesquisador.


André Gobi

Historiador pela UNESP, especialista em Jornalismo Científico pela UNICAMP. Foi editor e jornalista de publicações voltadas para ciência e tecnologia. É um dos sócios na Pau a Pique Produções, produtora de documentários.