A mulher negra e as suas batalhas pela felicidade profissional e afetiva

A história da mulher negra brasileira é marcada pela luta, sofrimento e busca por dias melhores. Desde os tempos da escravidão ela é vista como um objeto de trabalho, desejo e prazer sexual. E nos dias de hoje, alguns desses valores refletem em sua vida social, profissional e afetiva. Como aponta o historiador e jornalista, Jonas Feliciano: “A sociedade brasileira ainda carrega vestígios da escravidão. Por mais que tenhamos evoluído, é indiscutível que essas características estejam enraizadas na sociedade”, afirma.

Já dizia Gilberto Freyre, “Branca para casar, mulata para f$#$$r, negra para trabalhar” (FREYRE apud THEBALDI, 2011, p. 8), nesse contexto é possível ver uma realidade de preconceito em volta das mulheres negras e mulatas, onde se tem na figura da mulher branca a esposa ideal, a mulher para firmar um compromisso e assim sobra para a mulata e a negra a diversão masculina e os trabalhos, sobretudo domésticos. Algo que vai além do racismo, pois engloba os padrões de beleza existentes em uma raça, resultando em uma realidade, onde a mulher negra teria de buscar a beleza branca, surgindo a necessidade de alisar os cabelos, recorrer a cirurgias plásticas para mudar os seus traços raciais, etc.

Porém essa realidade vem sofrendo transformações ao longo dos anos, como diz o sociólogo Jorge Santos: “Embora em algumas cidades brasileiras, a negra é aquela que possui menor escolaridade, é mãe solteira, trabalha mais e possui menor rendimento financeiro. Atualmente, ela tem aceitado melhor as suas raízes e tem ganhado espaço na sociedade e na vida profissional, apesar das lutas que vive diariamente contra a discriminação de seu gênero e sua raça, fatores que pesam na hora de disputar uma oportunidade no mercado e no amor”, afirma.

Uma vida cercada por batalhas em busca da superação do preconceito presentes ao longo de sua jornada profissional e afetiva. “Hoje, se as mulheres, de uma maneira geral, enfrentam dificuldades em conquistar determinados espaços, as mulheres negras encontram ainda mais obstáculos. Isso porque, infelizmente, recebem do outro algum tipo de preconceito. Teoricamente, parece que superamos as características escravagistas. Contudo, a realidade não é tão animadora!”, diz o historiador Jose Feliciano.

E neste cenário de lutas e conquistas, a mulher negra cada vez mais supera esses obstáculos raciais, um exemplo, é o aumento do número de negros nas universidades nos últimos anos, de acordo com o IBGE.  Embora a mulher negra tenha que apresentar um grande gasto de energia para superar as dificuldades encontradas no caminho.

Hoje, as mulheres negras  conquistam sua graduação, bons cargos no mercado, mesmo que tenham que lutar constantemente para mostrar o seu potencial . E em meio a essa busca por conquistas, algumas mulheres para manter os seus cargos, acabam sacrificando outras áreas de suas vidas, como: o lazer, a maternidade, o casamento. O que leva algumas mulheres a criarem estratégias próprias para o sucesso. Como diz Maria de Lourdes, 25 anos, arquiteta:

“ Aprendi a depender apenas de mim. Estudei, arrumei emprego, mudei de cidade. Fui mãe solteira ainda jovem. Mas nunca me deixei abalar. Quanto mais as pessoas achavam que eu não iria a lugar algum, eu me dedicava nos livros e hoje, tenho meu próprio negócio, viajo para onde quero, sustento o meu filho, sem depender de ninguém, sim sou solitária porque não encontrei um bom partido, mas aprendi a não ligar para isso”, desabafa.

E como a cor da pele pode afetar na vida afetiva?

Existem alguns casos, que mesmo bem sucedidas e independentes, as mulheres acreditam que chegou  a hora de construir uma família. E nesse momento as  negras encontram outra dificuldade, o preconceito dos homens que idealizam um padrão de beleza para as suas futuras esposa  ,em alguns casos esse padrão exclui as negras, que mais uma vez são vistas com outros olhos quando o assunto é casamento. O que acaba resultando na solidão da mulher negra, elas acabam sozinhas, não porque querem, mas por não encontrarem um companheiro.

Um fato que tem ocorrido são os  negros após passarem por tantos anos de racismo, não desejarem isso para seus filhos, então ao buscar uma parceira, buscam o casamento inter-racial para “embranquecer” suas futuras gerações. Lógico, que a maioria das uniões inter-raciais são por amor e respeito. Mas também existem casos, aonde a miscigenação vem com outros intuitos. Como diz um homem de 35 anos que prefere não se identificar.

”Sou negro e venho de uma família de negros. Quando atingi determinado nível em minha profissão, o que foi muito difícil. Comecei a escutar de meus amigos que deveria me casar com uma mulher branca, assim todos iam ver logo que eu havia enriquecido, eu ganharia status e meus filhos nasceriam mais claros. Mas, não escutei todo esse preconceito. Casei com uma mulher negra, com caráter e personalidade e hoje temos uma família linda”, conta.

Já a estudante Susana Santos, 25 anos, conta que sofreu preconceito pela família do namorado.  “Namorei por dois anos um rapaz negro,  era complicado porque ele vivia admirando qualquer moça branca que aparecia na televisão. Depois começava a implicar com meu cabelo afro, minhas roupas coloridas e tudo mais. Terminamos. Comecei a sair com um rapaz branco. Foi a vez da família dele implicar comigo, sempre via os comentários, ela é negra mas é bonitinha, que moça exótica, e por aí vai. Via sempre o olhar de reprovação por onde passávamos, me sentia no século passado! Mas não ligava nos amávamos. Até que um dia engravidei e ele me largou. Hoje, crio meu filho sozinha e nunca mais encontrei um homem que  pudesse partilhar minha vida, eles sempre  brincavam com meus sentimentos, então desisti!”, diz a jovem.

Ainda que a mulher, para ser feliz, não tenha que, necessariamente, se casar, quando ela faz esta opção, a cor da sua pele não deveria ser uma desvantagem nesse processo. “Nunca dependi de ninguém para ser feliz. Sempre fui independente. Mas quando decidi encontrar um namorado percebi que muitos homens apenas queria passar tempo comigo e sofria muito. Me apaixonava e saiamos várias vezes, quando eles percebiam que eu queria compromisso caiam fora e em seguida apareciam namorando outra. Nunca achei que era por causa da pele. Mas depois acabei percebendo isso em algumas situações. Sofri muito, porque é algo que não posso mudar. Mas me conformei e hoje mesmo sozinha sou feliz. Não encontrei ninguém para realizar meu sonho de casar, mas encontrei outras alternativas para preencher essa carência e ser feliz”, comenta uma jovem que não quer se identificar.

Mas nem sempre a situação é desfavorável. Existem várias mulheres negras que alcançaram sucesso no amor e na carreira, e encontraram a felicidade em suas vidas, como a empresária Maria Vanilda, 58 anos. “Casei com um homem branco que me amava muito e lutamos contra tudo e todos, e vivemos felizes até ele falecer. Depois disso,  dediquei minha vida aos meus filhos, trabalhei duro, nunca dependi de homem nenhum para ser feliz. Sempre fomos meus filhos e eu, pois nunca encontrei alguém que valia a pena partilhar a minha vida. E confesso, atualmente é  complicado encontrar alguém legal neste mundo, então prefiro viver só do que mal acompanhada ou com alguém que não me valorize”, afirma.

Mas vale lembrar  mulheres, mesmo em um cenário de lutas e conquistas dia após dia, lembrem que é  um ambiente de superação. Sendo  importante que cada mulher negra reconheça o seu verdadeiro valor na sociedade. “A mulher  precisa saber o quanto é bonita, forte, livre, inteligente, poderosa, sedutora e guerreira. Ela deve saber que tem uma força que ninguém vê. E que merece ser respeitada e amada como qualquer outra pessoa. Ela não precisa se embranquecer para ser aceita por ninguém. A sociedade que precisa mudar essa cultura de racismo e aceitar o diferente” completa Vanilda.


Bruna San Freitas

Carioca, jornalista e profissional de relações públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atenciosa ao mercado, possui as certificações HubSpot e Rock Content em Produção de Conteúdo, Inbound e Outbound Marketing, além de cursos diversos como cerimonial, telejornalismo, sustentabilidade empresarial, linguagem corporal, entre outros estudos. Sua experiência como repórter em jornal impresso e online em diversas editorias e em revista somam mais de nove anos. Passando ainda, pelas áreas de assessoria de comunicação e imprensa, eventos, vendas, gestão e planejamento estratégico de campanhas e ferramentas de marketing, gerenciamento de redes sociais, publicidade física e online, gestão de pessoas e gerenciamento nas ações em prol da imagem e reputação. Sempre determinada e focada, possui uma grande disposição em aprender sempre mais e compartilhar os seus conhecimentos. Acreditando que escrever histórias e dividir saberes, é uma forma de enriquecimento na bagagem de vida.