Balé para autistas: uma experiência inédita no Brasil

FEIRA DE SANTANA, BA – Roqueline Amorim observa as duas filhas na aula de balé e se emociona. Ela jamais pensaria que as meninas pudessem ter tantos benefícios com a dança. “Elas estão progredindo muito. Principalmente Yasmin, que já começou a falar algumas palavras, como papai. Meu sonho é ouvir ela me chamar de mamãe”, confessa, entre lágrimas. Mas por que esta mãe considera tanto avanço assim para as filhas praticarem balé, algo tão natural a tantas meninas?

A resposta é o Programa Arte de Viver, da Fundação Cultural Egberto Tavares Costa. Nas aulas, a cor dos colans e das meias mostra a peculiaridade da turma: azul. Todas as crianças são portadoras do Transtorno do Espectro Autista, também conhecido como autismo. As aulas começaram há cerca de dois meses, duas vezes por semana. Esta é uma iniciativa inédita no Brasil, promovida pela prefeitura de Feira de Santana, Bahia, cidade que fica a 120 quilômetros de Salvador.

Professor: “Elas têm as destrezas físicas”

O professor desta classe especial necessita algumas habilidades importantes, como: paciência para repetir quantas vezes forem necessárias, compreender a limitação do outro e dela tirar o melhor. Além disso, ele deve observar para planejar como fazer eficientemente. Precisa ler o ambiente, que é dos mais lúdicos. E, principalmente, interpretar uma linguagem baseada em poucas palavras e muito movimento corporal, mesmo que quase sempre involuntário. “Elas me surpreendem a cada dia”, elogia o professor Adauto Silva. “Mostram que têm possibilidades para aprender. Este universo é amplo”. Aprender o meia-ponta – andar nas pontas dos pés, um dos fundamentos do balé clássico, ou o plié, importante movimento feito na barra. “Elas têm as destrezas físicas e as expectativas são as melhores”, aponta o educador.

E as ferramentas usadas nas aulas são as mais diversas, baseadas na observação. Um cordão à altura da canela as ajuda no equilíbrio ao caminhar. “Ter serenidade para entendê-las e aprender a trabalhar com elas”, ensina Adauto, lembrando que são crianças que, claro, precisam de ajuda. Para que as crianças tenham maior interação, as aulas têm a participação ativa dos pais. “Nunca tinha visto minha filha falar uma palavra, sequer”, observa Roqueline. Patrícia Araújo, mãe de Ana Clara, também vê evolução. “Ela começou a estudar neste ano e está se relacionando bem com as coleguinhas”.

Autismo: sem cura conhecida

Segundo a Wikipédia (Enciclopédia Livre da Internet), o autismo é um transtorno neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, comunicação verbal e não-verbal e comportamento restrito e repetitivo. Os sinais geralmente desenvolvem-se gradualmente, mas algumas crianças com autismo alcançam o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regridem.

Intervenções precoces em deficiências comportamentais, cognitivas ou da fala podem ajudar as crianças com autismo a ganhar autonomia e habilidades sociais e de comunicação. Embora não exista nenhuma cura conhecida, há relatos de casos de crianças que se recuperaram. Poucas crianças com autismo vivem de forma independente depois de atingir a idade adulta, embora algumas tenham sucesso. Tem se desenvolvido uma cultura do autismo, com alguns indivíduos buscando uma cura enquanto outros creem que o autismo deve ser aceito como uma diferença e não tratado como um transtorno.


JB Cardoso

Jornalista e escritor, nascido no Rio Grande do Sul e radicado na Bahia, escreve sobre quase todas as editorias, preferindo sempre contar histórias. Viciado em informação, faz dela um meio de vida. Casado com Thábatta Lorena e pai de Pilar.