Lei Maria da Penha completará 13 anos em agosto, mas violência contra mulher ainda tem números preocupantes

Segundo pesquisa, 76% das mulheres indicaram que o agressor era alguém já conhecido

“Tudo começou quando ele passou a me obrigar a fazer algumas coisas. Eu gostava dele e sempre achei que poderia mudar, era o que ele falava. Sentia vergonha, minha família falava que a culpa era minha, porque eu permitia”

O relato a cima é de Karolina Nunes, 25 anos, mais uma vítima de agressão física e psicológica por parte do companheiro. Durante 8 anos de relação foram duas filhas e muitos socos e tapas que deixaram marcas até hoje.

Ser vítima dentro da própria casa, essa é a realidade de milhares de mulheres brasileiras que sofrem com agressão, na maioria dos casos, do companheiro ou conhecido, são 42% segundo o Relatório Vitimização da Mulher no Brasil de 2019 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A lei Maria da Penha, que criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar e eliminar todas as formas de discriminação contras as mulheres, completará em agosto de 2019 treze anos com muitos avanços, mas muita coisa ainda a ser feita.

Os dados da pesquisa do Datafolha encomendado pelo (FBSP) mostram que nos últimos 12 meses quase 30% das mulheres sofreram algum tipo de violência ou agressão, a maioria tem entre 16 a 24 anos e são negras.

O caso de Karolina mostra como é difícil combater este tipo de violência, já que existe a falta de apoio por parte da própria família da vítima, isso faz com que poucas mulheres denunciem os casos. Em 8 anos de relação Karolina nunca denunciou Cássio, o companheiro, “minha família falava que não tinha necessidade porque ele era o pai das minhas filhas”. Apenas 10% das mulheres relatam ter buscado uma delegacia.

A psicóloga Graziele Soares do Espaço Naiph em São Bernardo do Campo região da grande São Paulo, atende entre outros casos, mulheres que já sofreram casos de violência dentro de casa, “as pessoas não chegam falando que foram agredidas, primeiro precisa criar um vínculo com a paciente, para ele se sentir confortável”.

A psicóloga fala como é importante a relação com a família, e como o núcleo familiar influencia a decisão de denunciar, “a mulher continua na relação abusiva pensando no filho, existe a dependência do marido por questões financeiras, amorosas a mulher acredita que o homem é um suporte” diz a psicóloga.

O artigo 10 da lei Maria da Penha fala em “eliminar toda a forma de violência contra a mulher”, o que vai alem da agressão física, a falta de apoio das pessoas próximas e a sensação de que o estado não a protege também contribui para este quadro. Karolina fala que depois de anos de relação, hoje não aceita mais esse tipo de comportamento, e consegue identificar quando a relação segue pelo mesmo caminho, “tudo começa com um ciúme incontrolável, não poder usar certo tipo de roupa, a agressão não é só bater ou com palavras, o mundo é machista, o homem pode tudo e a mulher tem que cuidar da casa”.


Felipe Nascimento Cruz

Paulistano, com formação em jornalismo e publicidade. Um ex jogador de futebol que acredita que a comunicação pode mudar o mundo.