Mãe de três filhos fala sobre já ter realizado um aborto clandestino

Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, 1 em cada 5 mulheres com mais de 40 anos já fizeram pelo menos um aborto

Mulher, negra, pobre, natural de Pernambuco, cria três filhos sozinha com um salário de ajudante geral. conversamos em São Paulo, com Claudia Marcelino, 46 anos, uma das milhares de mulheres que decidiram interromper a gravidez no Brasil. A pesquisa nacional do aborto (atualizada em 2016) mostra que cerca de 500 mil mulheres por ano abortam no país.

A história da Claudia segue um roteiro conhecido, saiu do nordeste para tentar uma vida melhor em uma grande capital, teve filho jovem e hoje é mãe solteira e chefe da família. Antes do primeiro filho, quando tinha 19 anos de idade, pouco tempo depois de chegar a São Paulo, se envolveu com um rapaz e engravidou.

O rapaz, jovem também, não aceitou a gravidez e passou a questionar se realmente era o pai da criança. Grávida jovem, sem família por perto e sem apoio do companheiro, um cenário para uma dura decisão, fazer um aborto. Apesar da segurança de falar sobre assunto, Claudia estava atenta a qualquer barulho ou risco de alguém entrar e ouvir aquela conversa, sempre alertando “assunto complicado.” Uma reportagem na TV sobre a legalização do aborto a fez lembrar o que tinha vivido.

Foi perto de sua casa na zona sul da cidade de São Paulo, a amiga de uma amiga indicou uma enfermeira que já havia feito vários abortos. Por duzentos reais, e com uma pessoa “experiente” no assunto, pareceu à melhor solução naquele momento, o cenário era a própria casa da enfermeira. Simples, com uma sala grande, uma cozinha e o procedimento era feito no quarto.
Recebeu algumas informações, sobre como seria o aborto, as dores e o tempo que levava. “Ela me levou ao quarto, me lembro dela usar luvas, tinha uma bacia no chão perto da cama e assim que ela colocava a sonda já sentia o sangue descer”.

Tudo aconteceu pela manhã, e já no final da tarde foi ao hospital fazer a curetagem, um procedimento médico para limpar o útero do resto de um aborto incompleto. Assim como havia comprado a sonda que usou, em uma farmácia de bairro, e sem em momento algum ser perguntada pelo farmacêutico o motivo da compra, quando foi ao hospital preencheu uma ficha descrevendo o motivo do atendimento. Com um semblante de conformismo, Claudia, me fala que não recebeu uma orientação médica ou da equipe de enfermagem sobre os riscos de um aborto feito de forma clandestina.
No Brasil por ser crime, exceto em casos de estupro, risco de saúde da mãe ou anencefalia, que é um caso raro de má formação do cérebro do bebê, fica bem complicado ter números oficiais, mas uma forma de ter esse controle é pelo registro de atendimento hospitalar decorrente de complicações relacionados ao aborto.

Hoje mais experiente mãe de três filhos, Claudia me diz que não faria um aborto ilegal novamente, mas eleva o tom de voz e até se arruma na cadeira para dizer “não me arrependi e faria novamente naquela época”.

Segundo o DATASUS, que é o sistema de informação unificado do Sistema Único de Saúde, em 2017 foram quase duzentos mil registros entre curetagem e esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina chamada (AMIU) vale lembrar que dentro desses números também estão abortos espontâneos, mas é considerada a minoria pelo estudo.

Entre risadas e falas sérias, Claudia fala abertamente sobre sexo, e procura manter esse diálogo em casa. Com uma filha de 14 anos sabe dos riscos da história se repetir, “hoje falo com meus filhos, sou a mãe e pai deles”. Um duplo papel cada vez mais comum no Brasil. Uma pesquisa do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça mostra que o número de mulheres que são chefes de família aumentou de 23% para 40% nos últimos 20 anos.

Sobre o rapaz que a engravidou, fala de forma tranquila e até fazendo piada, ainda moram no mesmo bairro e quando se encontram pelas ruas ele foge. “Quando ele me vê sobe em cima da moto e vai embora” conta dando gargalhadas, nos raros momentos de descontração da conversa.
Evangélica de criação, mas sem seguir nenhuma religião, diz não concordar sobre a criminalização do aborto, bandeira defendida pela bancada evangélica no congresso, “as pessoas vem a tua casa colocar um prato de comida? Agora você acha que o governo tem o direito de se meter na sua vida? Não acho isso certo”.
Em um momento de pausa e reflexão depois de dizer se era contra ou a favor a legalização do aborto, Claudia cita uma passagem bíblica “a bíblia também fala em ‘faz a tua parte que eu te ajudarei’”. “O que eu fiz vou responder pelos meus atos, esse é meu pecado”.

O Datafolha divulgou uma pesquisa no incio do ano mostrando que 41% dos brasileiros são contra qualquer tipo de aborto, enquanto 34% acham que deve continuar como está hoje, permitido em casos de estupro, risco de vida para mãe ou ser o feto for anencéfalo.


Felipe Nascimento Cruz

Paulistano, com formação em jornalismo e publicidade. Um ex jogador de futebol que acredita que a comunicação pode mudar o mundo.