Marechal Rondon ganha nova biografia

Escrita por Larry Rohter, biografia avalia a influência do positivismo na vida do marechal e sua dedicação aos povos indígenas*

Cândido Rondon foi uma das mais fascinantes figuras brasileiras no que se diz respeito à exploração do território nacional e pela luta de direitos aos povos indígenas. E o livro Rondon – Uma Biografia, escrito pelo jornalista norte-americano Larry Rohter (com tradução de Cássio de Arantes Leite e publicado pela Companhia das Letras) explora essa contradição, uma vez que ao abrir caminho para os rincões brasileiros e promover a integração de lugares “distantes” como Amazônia e Centro-Oeste, o “progresso” e suas forças econômicas acabaram por expulsar povos indígenas de suas terras.

Mas não é apenas a este fato que o livro se destina. Para além desta ingenuidade positivista (anacrônica, de fato) de Rondon, de achar que o progresso tornaria a Terra em um paraíso, o autor destaca como as atividades de integração foram importantes para o desenvolvimento do país, por meio de linhas telegráficas, estradas, pontes, mapeamento geográfico, hidrográfico, e principalmente a boa relação com os povos indígenas.

Rondon fundou, em 1910, e liderou o Serviço de Proteção aos Índios, buscando garantia de direitos a esses grupos, pois realmente acreditava na igualdade essencial dos seres humanos. De fato, acreditava e esperava que brancos e índios (numa antítese entre o civilizado e o bárbaro) viveriam em harmonia. No entanto, os resultados não foram nem de longe os esperados, pois o Estado brasileiro dizia não dispor de recursos (e nem tinha vontade política) para cumprir os acordos que Rondon tinha tratado com os povos indígenas.

O autor traz passagens importantes de como a fama de Rondon despertou admiração tanto no Brasil quanto no exterior (importante lembrar do estado em sua homenagem, Rondônia). Junto de Euclides da Cunha, fundou a revista literária A Família Acadêmica. Também foi padrinho do primeiro filho de Euclides, Sólon. Para além das fronteiras, a sua influência chegou até o presidente americano Theodore Roosevelt, e como a jornada dos dois na descida pelo rio da Dúvida mudou a visão do “yankee” sobre a questão indígena. O poeta e dramaturgo Paul Claudel, comparou Rondon a uma figura dos evangelhos, e até mesmo Einstein propôs seu nome para o Nobel da Paz, quando descobriu seus tratamentos respeitosos aos indígenas e que o Marechal era um general pacifista.

Roosevelt e Rondon. Marechal teria mudado a visão do americano sobre povos indígenas, deixando-o mais sensibilizado.

De acordo com Rohter, esse posicionamento de Rondon, entretanto, acabou por lhe fechar portas. “O positivismo brasileiro proibia a aceitação de qualquer cargo político, e Rondon teve de recusar muitas ofertas de cargos importantes”, pontua o jornalista. “Também declinou de postos de ministro, e em duas ocasiões rejeitou pedidos de encabeçar movimentos golpistas militares que pretendiam derrubar um presidente civil, eleito pelo povo”, completa o autor.

Rondon – Uma Biografia é uma obra com 584 páginas e custa em torno de R$ 94,90. O preço é salgado para um país onde a educação é vista com desdém e pouco se incentiva a leitura. Este é um ponto negativo, uma vez que dificulta a aquisição e circulação de uma obra importante, principalmente em um momento em que os povos indígenas novamente estão sob grande ameaça em nome do desenvolvimento, por mais subjetivo que este desenvolver seja. Que o lema de Rondon que sensibilizou Roosevelt seja lembrado e aplicado nesses tempos conturbados: “morrer se preciso for, matar nunca”.

*Com informações do Estado de S. Paulo


André Gobi

Historiador pela UNESP, especialista em Jornalismo Científico pela UNICAMP. Foi editor e jornalista de publicações voltadas para ciência e tecnologia. É um dos sócios na Pau a Pique Produções, produtora de documentários.