Misofonia??!! Já ouviu falar?

Será que você tem ou conhece alguém que sofre com isso?

Esta é a semana Nacional de Conscientização da MISOFONIA ( de 06 a 12 de Maio). Misofonia é um problema pouco (re)conhecido e que atinge muitas pessoas, que na maioria das vezes são tachadas como ignorantes, chatas, arrogantes, irritadas e mal educadas.

Conversamos a otorrinolaringologista doutorada no assunto Dra. Tanit Ganz Sanchez e vamos desvendar todos os sintomas que este mal causa nas pessoas e seus possíveis tratamentos.

O que é Misofonia?

A Misofonia, ou Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons, é a aversão a sons bem específicos, de volume baixo e repetitivos. Ela representa um problema novo, que só recebeu nome no ano 2000. Os sintomas começam na infância ou na adolescência. Como os pais não entendem, esses jovens são considerados anti-sociais, chatos e ranzinzas. Isso parece frescura, mas não é!

O que a Misofonia provoca nas pessoas:

1)  uma reação emocional negativa (raiva, ódio, irritabilidade, nojo) que é forte, rápida, incontrolável e desproporcional quando esses sons estão presentes. Ex: sons feitos com a boca (mastigar e deglutir alimentos, mascar chiclete, tossir, pigarrear, estalar lábios, assoviar, tomar sopa), com o nariz (respiração ruidosa ou ofegante, soar o nariz, roncar), e com as mãos e os pés (digitar, clicar caneta, usar talheres, tamborilar, mexer chaves, abrir papel de bala/pipoca, arrastar chinelo, andar de salto alto). Algumas vezes, latidos, miados e pios também incomodam bastante.

2) dificuldade de relacionamento familiar, profissional e social, que resultam em isolamento da pessoa.

A Misofonia faz parte da quadrilha do ouvido!

A Misofonia “rouba” a atenção seletiva!

Já falamos que a Misofonia é a aversão a determinados sons de volume baixo e repetitivos.

Há anos nós nos perguntamos POR QUE esses sons baixos incomodam, e não os altos, como as músicas de shows e baladas, as buzinas do trânsito ou as vozes nas praças de alimentação?

Vários pacientes responderam que esses sons:

– parecem FALTA DE EDUCAÇÃO, por isso eles nunca fariam isso: esse pensamento combina com a RAIVA sentida ao ouvir os sons de mastigar de boca aberta, de fazer barulho quando toma sopa, de vizinha andando de salto alto etc

– provocam NOJO: isso combina especialmente com os sons de soar o nariz, tossir e pigarrear

– roubam a atenção quando eles precisam se concentrar: para checar isso, pesquisamos alguns voluntários em 2016/2017 para avaliar a ATENÇÃO SELETIVA deles em silêncio e durante o som de mastigação de maçã. Participaram 40 pessoas (10 com Misofonia, 10 com Zumbido e 20 sem misofonia e sem zumbido). No teste de atenção feito no silêncio, os 3 grupos tiveram resultados semelhantes. No teste feito com a adição do som da mastigação, as pessoas com misofonia tiveram uma porcentagem de acertos BEM MENOR do que as dos outros 2 grupos. Algumas delas até se sentiram mal, com taquicardia e sudorese ao ouvir o som.

Assim, concluímos que os motivos da seletividade dos sons que incomodam são variados e que existe um prejuízo importante da atenção em pessoas com misofonia quando esses sons aparecem.

Por isso, precisamos ter mais empatia com essas pessoas e monitorar os sons desnecessários que nós mesmos fazemos!

O que acontece nos ouvidos e no cérebro de quem tem Misofonia?

Todos os sons que nós ouvimos são conduzidos até o cérebro para serem analisados e entendidos. Eles passam por várias estações até chegarem no córtex auditivo, que é a região final desse caminho.

Como a Misofonia é um problema descoberto recentemente, várias pesquisas estão sendo feitas para mais descobertas. Por enquanto, sabe-se que nas pessoas com Misofonia, duas áreas cerebrais estão mais ativadas durante a passagem dos sons que são feitos com a boca, nariz, mãos e pés (listados no Post 1 desta série). São elas:

1)  o sistema límbido, que é o centro das emoções e fica entre o meio e a lateral do cérebro

2)  o córtex pré-frontal, que é o centro da atenção e fica na parte da frente do cérebro

Assim, essas conexões cerebrais SUPER ATIVADAS podem provocar o reflexo imediato da reação negativa forte e desproporcional com esses sons, além de fazer com que eles não consigam se concentrar naquilo que precisam fazer porque prestam mais atenção aos sons que são irrelevantes e não conseguem ignorá-los como as outras pessoas conseguem.

A Misofonia e as principais linhas de tratamento

Como já reforçamos, a Misofonia é um problema descoberto recentemente e muitas pesquisas ainda precisam ser feitas. Até o momento, as principais linhas de tratamento realizadas são:

1) estimulação sonora, em geral com sons baixos, leves e estáveis que podem mudar aquela super ativação do centro das emoções (sistema límbico) e do centro da atenção (córtex pré-frontal), como explicado no Post 5/7.
2) medicamentos: como a Misofonia faz parte da quadrilha do ouvido, nós, otorrinolaringologistas, estamos observando o efeito de alguns medicamentos que são usados para zumbido e hiperacusia, que são dois outros sintomas concomitantes que envolvem ouvidos e cérebro. Alguns psiquiatras usam medicamentos para os sintomas coadjuvantes como ansiedade, fobia e transtorno obsessivo-compulsivo.
3) mudanças comportamentais: podem ser feitas por meio de terapia cognitiva comportamental, aliada ou não ao neurofeedback (técnica de treinamento e monitoração da atenção) e à meditação.

A Ciência e a prática clínica estão sempre avançando, por isso precisamos adotar as técnicas de tratamento que já estão disponíveis atualmente, mesmo que elas ainda não sejam capazes de melhorar 100% das pessoas. Tentar sempre vale a pena e é melhor do que não fazer nada, certo?! 

O que há de esperança para quem tem Misofonia?

Há anos nós estudamos pessoas com sintomas pouco valorizados pela Medicina, como Misofonia, Zumbido e Hiperacusia. Ver pessoas que sofrem e não sabem o que fazer nem onde procurar ajuda mexe com a gente! Por isso criamos algumas medidas que podem ser feitas por todos, independente de morar perto ou longe de um centro avançado.

Uma de nossas iniciativas foi o SOS MISOFONIA, que é uma maneira anônima, simples e elegante de avisar as pessoas ao seu redor que os sons que elas produzem podem ser irritantes. Quem envia o email fica anônimo, escolhe os sons que o incomodam e que gostaria que as pessoas soubessem. Quem recebe o email vai ler várias informações sobre misofonia, incluindo os sons que foram escolhidos por quem enviou. Veja o link http://misofonia.com.br/misofonia-2/ e use à vontade para ajudar as pessoas a entenderem melhor esse problema.

Também criamos o Novembro Laranja em 2006, que é uma campanha inicialmente direcionada apenas para o zumbido, mas que abraçou a Misofonia em 2017 para ajudar a divulgar essa quadrilha do ouvido!

Outras ações louváveis foram realizadas por pessoas que sofrem com Misofonia e estão ajudando milhares de pessoas. São elas: 
1) o grupo Misofonia em Português que já conta com mais de 4000 pessoas (https://www.facebook.com/groups/misofoniapt/
2) a recém criada Associação Virtual Brasileira de Misofonia, que também está empenhadíssima em divulgar o assunto e buscar soluções.

3) o Instituto Ganz Sanches criou o canal TV Misofonia:https://www.youtube.com/channel/UCfiMR1TpWHBrnoMnY5AjKYg

Com o passar do tempo, temos CERTEZA de que a Misofonia será um problema mais conhecido, mais investigado e tratado com mais sucesso. Que venha o futuro!

Fonte: Profa  Dra. Tanit Ganz Sanchez :

Otorrinolaringologista com doutorado e livre-docência pela USP, Fundadora e Diretora do Instituto Ganz Sanchez, criadora da Campanha Nacional de Alerta ao Zumbido (Novembro Laranja), do Grupo de Apoio Nacional a pessoas com Zumbido, da TV Zumbido e do curso online ABC…z do Zumbido. Assumiu a missão de desvendar os mistérios do zumbido e é pioneira nas pesquisas no Brasil, sendo reconhecida por sua didática, objetividade e compartilhamento aberto de ideias. É especialista em Zumbido, Hiperacusia, Misofonia e Distúrbios do Sono.

Serviço: http://www.institutoganzsanchez.com.br/