O militante político Torquato Neto

DESAFINANDO O CORO DOS CONTENTES -Torquato Neto sempre desafinou o coro dos contentes / incomodou os acomodados. Desde meninote fazia arte e artimanhas, se indispondo com diretores, professores, autoridades, com quem lhe atravessasse o caminho.

Na inauguração da ponte sobre o Rio Poti, nem mesmo o prefeito e o padre descerraram a faixa vermelha, ele saiu correndo de braços abertos atropelando todo o cerimonial do evento. Nas águas desse mesmo rio, arremessou o relógio recém-ganho de sua mãe, em um natal, para livrar-se da obrigação de cumprir horário.

Aos 13 anos, tomou o primeiro porre em uma festa junina, terminando a noite na Paissandu, zona da prostituição em Teresina. Foi proibido de entrar no Jóckey Clube de Teresina, pelo presidente, coronel Joffre do Rêgo Castello Branco, por ser um dos “cabeludos rebeldes” da cidade.

Polemizou com a turma do Cinema Novo, indo contra a postura do movimento de receber dinheiro do governo e criticá-lo simultaneamente. Deu um tapa na cara do cartunista Jaguar, um dos diretores do jornal, quebrando-lhe os óculos: “Cego não precisa de óculos”, justificou. Motivo: O jornalista e cartunista Jaguar havia feito um trocadilho infame no Pasquim, do qual era diretor, chamando-o de “falsa baiana.” Puxou briga com Ataúlfo Alves, que retrucou pedindo: “não cole cartaz em mim.” Chamou Juca Chaves de “Bobo da Corte.” Desafiou Geraldo Vandré quando este se enfureceu com Caetano Veloso por este querer homenagear Roberto Carlos no lendário programa televisivo O fino da bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues, classificou a atitude de Vandré de demagógica, já que abominava a separação que então existia entre MPB e iê-iê-iê.

Irritou a turma do ECAD, até hoje uma caixa preta a ser aberta, por denunciar a máfia dos direitos autorais. Era intransigente, porém justo, honesto em tudo por tudo. Louvando o que bem merecia e deixando o ruim de lado, tinha absoluta certeza do valor de cada coisa.

Eis, em suas palavras, uma explicação necessária: “Eu não sou de plantar bananeira em apartamento, e quando compus Mamãe, Coragem não foi movido por nenhum sentimento edipiano. O que me preocupava era desmitificar um valor estabelecido simplesmente porque era estabelecido; no caso foi a mãe; azar, podia ter sido o mito do diploma, o anel de doutor, sei lá”.

Torquato Neto pagou um alto preço por sua postura crítica diante de situações cáusticas, como a vivenciada pelo povo brasileiro na década de 1960. Enquanto alguns se vendiam por um “lugar ao sol”, Torquato Neto dava “as costas ao lugar e ao sol” (Augusto de Campos). Não sem razão, escreveu o poema “DO AVISO FINAL”:

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho
É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana se firmará a machadadas.

POR UMA QUESTÃO DE ORDEM? – Torquato Neto foi um militante político. A característica que personaliza Torquato Neto no cenário da literatura brasileira pós-64 foi a participação ativa na conturbada reformulação histórico-cultural do Brasil.

O país tinha saído de um período pré-industrial, compreendido entre as décadas de 1940 e 1950, e encontrava-se diante do impasse: estabelecer uma nova estrutura social ou desestruturar-se socialmente.

É justamente neste período que teve início a participação dele como pensador preocupado com as transformações políticas em evidência, questionando a cultura vigente com a concisa proposição: “A nós, tropicalistas, não interessa derrubar o Príncipe e deixar que sobreviva o Princípio”.

O poeta, antevendo o estabelecimento da desestrutura social, conseguiu uma marca registrada para a situação que se estabelecia na década de 1960 e iria se prolongar até o final de seus dias: o Brasil, segundo ele, havia se transformado numa Geleia Geral. “(…) escrevi lá: abaixo a geleia geral, três vezes. as pessoas pensaram que era a coluna. tradução: não sabem onde é que vivem e a alienação grassa (…)”.

Uma curiosidade: no dia do golpe civil militar – 1o de abril de 1964, Torquato Neto, militante estudantil, dormia na sede da UNE, na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro.

Foi acordado pelo amigo Nacif Elias pouco antes de o edifício ser incendiado. Ao pular o muro, para escapar, recebeu uma saraivada de balas. Uma delas penetrou sua máquina de escrever, quase matando-o.

Eis o que diz o poeta Paulo Machado: “Vale a pena lembrar que, após o Golpe Militar de 1964, as elites nacionais, sob a orientação do Estado Maior das Forças Armadas, criaram o mito do país em desenvolvimento e puseram à margem o projeto de Nação que as duas gerações de modernistas tinham elaborado. No final da década de 1960, no País do Futebol, era proibido pensar. O poeta Torquato Neto assumiu, a partir dos dois últimos anos da década, a incômoda tarefa de pensar e criar de forma consequente.

Resgatou a proposição de ‘desafinar o coro dos contentes’ e imprimiu integridade à Geleia Geral. Pôs em curso a poética da resistência cultural, que tem início com Gregório de Matos e continuidade com Tomás Gonzaga, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Na linguagem poética de Torquato Neto, estes referenciais culturais estão presentes e conscientemente digeridos. Quem estiver disposto a conferir leia, com urgência, os poetas indicados e fará descobertas surpreendentes. Depois, vai pintar uma vontade irresistível de repensar o Brasil. (Meio Norte, Alternativo, Teresina, 9 de novembro 1996, 1ª página).

Este Torquato Neto ainda está oculto na história política do Brasil. É preciso tirá-lo, pois, da ocultação.

Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, em 9 de novembro de 1944, filho de Maria Salomé da Cunha Araújo e de Heli da Rocha Nunes. Em 1959 Torquato Neto estudou em Salvador, Bahia, onde conviveu com um grupo de artistas baianos, depois foi para São Paulo e Rio de Janeiro, onde fez jornalismo e trabalhou em grandes jornais da imprensa carioca. O poeta compõe, faz roteiros para cinema, televisão e shows musicais, e é peça chave na idealização do tropicalismo brasileiro, movimento que transformou as letras e as artes no país. Torquato Neto foi suicidado em 10 de novembro de 1972, deixando um dos maiores legados da música popular brasileira, interpretado por ídolos da música nacional como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Macalé, Toquinho e Gal Costa.


Colaboração: Kenard Kruel