Por que as mulheres vítimas de violência se calam?

Apesar do aumento dos casos de feminicídio no país, o silêncio ainda faz parte da realidade das vítimas

Você tem que denunciar! Não seja burra, denuncie logo, ou prefere ficar apanhando? Não denuncia porque está gostando ou esperando morrer! Esses e outros comentários são escutados diariamente pelas vítimas de violência no país e no mundo. O correto é denunciar, seja a própria vítima ou quem souber dos acontecimentos, como diz o analista jurídico João M. Silva:

“Denunciar é importante,  pois a violência contra mulher é crime. E como todo crime deve ser punido. É algo simples, basta ligar 190 e contar o máximo de informações possíveis sobre o fato. E hoje, as mulheres contam com a  Lei Maria da Penha que tem como intuito gerar mecanismos para reduzir essa violência trazendo ações voltadas a atenção e aos cuidado das vítimas e agressores”, explica. 

Em alguns casos não existem testemunhas que façam essa denúncia, e é a vez da vítima recorrer as autoridades e contar o que está vivendo. Porém, antes do caso chegar as autoridades, a vítima encontra barreiras que a impedem de tornar público a violência sofrida. Barreiras impostas não somente pela sociedade como por seus próprios medos, onde a vítima pensa em falar, mas outras questões vem a tona, como o para quem ela estará dizendo, será que as pessoas na delegacia vão levá-la a sério, qual a bagagem cultural das pessoas que irão receber a sua denúncia,  será que vão acolhê-la, será que o seu marido ficará sabendo e como reagirá.

Esses e outros questionamentos acabam interferindo nas ações da vítima, como diz a psicóloga e pós graduanda em neuropsicologia, Luana Moreira:  “Cada pessoa é um caso. Mas o que tenho analisado é uma questão social, uma bagagem histórica relacionada à conquista da mulher na contemporaneidade. A mulher vem numa trajetória de luta e resistência e infelizmente ela vive em um cotidiano em que algumas pessoas trazem essa bagagem relacionada ao patriarcado. E aí quando ela sofre uma violência, ela decide se calar, o que pode está relacionado ao que ela vai sofrer falando. Ela que já sofre por ser mulher, por estar num lugar em que a sociedade não gostaria que ela estivesse, em uma sociedade onde a mulher é pouco ouvida e quando é ouvida, por vezes, é visto como um excesso e assim ela não é levada a sério ”,explica.

A psicóloga também afirma que além de ser uma questão social, o silêncio das vítimas de violência também está ligado a questões domésticas: “A mulher pode escolher se calar devido a atividade que exerce dentro de seu lar e o seu papel no ciclo social, onde se tem por exemplo, a presença de um marido que faz abuso emocional e assim ela tem medo de falar do marido as autoridades ou a outras pessoas de seu convívio, e esse marido ficar sabendo e achar que está sendo denegrido e fazer represálias. E ainda, ao denunciar ver as outras pessoas serem a favor do homem, ao invés de acolhê-la e dar uma palavra de motivação, essa mulher teme ser ridicularizada e se cala”, diz Luana Moreira.

O que aconteceu com Selma Rodrigues, universitária, 25 anos:

“Nunca consegui denunciar o meu ex marido violento. Tinha muito medo de contar para alguém, ele ficar sabendo e me matar. Dependia dele financeiramente, o que me deixava mais presa ainda naquela situação. Foram anos esperando e acreditando que ele poderia mudar, até que um dia ele apareceu falando que preferia ficar viúvo ao ser um homem divorciado. Foi quando tomei coragem para contar aos meus amigos e familiares. Porém, ao invés de encontrar apoio, eles ficaram do lado dele, falaram que ele era um bom homem, eu devia estar mentindo e até devia ter com outro. Foi um horror! Me calei e nunca mais contei a ninguém. Só consegui me separar anos depois porque fugi de casa e nunca mais voltei. Mesmo assim, não o denunciei”, conta a vítima.

O medo de represálias do próprio marido e o trauma em mostrar que aquele casamento feliz era na verdade um lugar de sofrimento é o que congela muitas mulheres. E conviver com as agressões em silêncio acaba sendo o caminho escolhido, como conta a aposentada Patricia Regina, 75 anos:

“Meu marido era um príncipe no inicio, me tratava feito uma rainha. Mas do nada ele mudou, ficou agressivo, me batia, tentava me enforcar, era violento por tudo. Caso eu falasse algo que não o agradasse, ele já vinha me bater. Nossos filhos viam tudo. Os vizinhos ouviam e diziam na minha cara que em briga de marido e mulher não se metia a colher. Eu sofria muito, mas nunca abri a boca para contar. Tinha medo. Medo do meu marido ficar sabendo e me matar. Medo dos amigos zombarem de mim, por um casamento fracassado. Medo das pessoas verem que fiz uma escolha errada. Medo de ser uma mulher separada em uma sociedade machista e criar meus filhos sozinha. Medo de tanta coisa, que preferia ficar ali, rezando para aquele homem mudar. E nunca mudou. Só me livrei dele quando ele morreu”, relata.

Medo que também calou a jovem estudante Solange Reis, 18 anos diante de um episódio de violência:

“Fui a uma festa com um grupo de amigas, lá encontrei um rapaz que havia conhecido em um aplicativo. Conversamos e a hora passou. Acabei me perdendo de minhas amigas. E ele insistiu para me levar em casa, afinal nos conhecemos lá, mas conversávamos há meses. No meio do caminho, ele parou o carro, e começou a tentar ter relações comigo. Eu disse que não! Ele insistiu, levantou minha saia e me estuprou, e ainda saiu falando que a culpa era minha por ter o seduzido. Estava meio bêbada, não sabia que aquilo era um estupro. Me condenava por ter entrado no carro de um desconhecido. Não contei nem para minha melhor amiga. Pois sabia que ela iria reclamar e me chamar de estúpida por aceitar carona, sendo que todas nós já aceitamos um dia. Tive medo de doenças, medo de gravidez, medo de muita coisa, mas o medo de abrir a boca e passar pelas condenações e reprovações dos outros era muito maior e me calei”, revela a jovem.

Mesmo em silêncio é possível conviver com a dor e tentar superar, embora uma simples denúncia pode salvar uma vida

Existem vários fatores que calam as vítimas de violência doméstica. E mesmo com as taxas de feminicídio tão elevadas, e a denúncia seja o principal caminho para punir o agressor, tirar a vítima daquela situação e possivelmente salvar a sua vida da vítima, algumas mulheres acreditam que ao se expor terão uma conseqüência muito maior do que não se expor. E para tentar amenizar a dor do silêncio, a psicologia tenta encontrar maneiras para auxiliar essas mulheres a perderem o medo de pelo menos pensar nas agressões e assim entender o que é melhor para as suas vidas, o silêncio ou a exposição dos fatos. Como explica a psicóloga Luana Moreira:

“Quando a pessoa prefere não se expor e decide sofrer a violência, ela já está sendo violentada, talvez mais ainda do que a violência que sofre por seu agressor. O que a gente faz na psicologia é trazer algumas motivações para desenvolver as possibilidades de falar ou não de forma autêntica e consciente, onde ela saberá as conseqüências e poderá analisar o que é melhor. O que depende de cada pessoas, existem pessoas que fazem 20 anos de terapia e não conseguem falar de acordo com os seus processos psíquicos e sociais, mas encontram nessa terapia um lugar onde são acolhidas sem julgamentos. E existem mulheres que decidem falar, se posicionar em relação ao assédio e violência vividos, e ai na terapia elas passam a entender os seus processos e assim descobrem até onde dão conta”‘, completa a psicóloga. Algo que aconteceu com a professora Maria Gomes, 54 anos:

“Guardei por anos as agressões sofridas por meu marido. Guardava cada lágrima e isso só me fazia mal. Um dia decidi me ajudar, lutar e viver. Cansei de ficar deprimida, chorando pelos cantos, decidi ser uma guerreira. Então,  fui a uma psicóloga, fiz um tratamento muito bacana na terapia. Fui a uma igreja, onde nas palavras de um padre encontrei conforto e esperança. E no grupo de oração encontrei forças para superar e conviver com a minha história, com a minha bagagem. No início, fui escondida da família e dos amigos, até que um dia tomei coragem e sai de casa, me divorciei. Foi quando sofri ameaças de meu ex marido, mas ele  se manteve afastado até o dia de sua morte. Depois disso, comecei a me aceitar mais como mulher. Fazia terapia e orava sempre. E agora, alguns anos depois, consigo falar da minha vida sem aquele medo de me julgarem. Hoje, faço parte de projetos que lutam contra a violência doméstica e incentivo a todas a não terem medo e dentro de seus limites, superar e vencer com vida a violência”, emocionada conta a professora.

*Os nomes foram trocados para preservação das vítimas


Bruna San Freitas

Carioca, jornalista e profissional de relações públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atenciosa ao mercado, possui as certificações HubSpot e Rock Content em Produção de Conteúdo, Inbound e Outbound Marketing, além de cursos diversos como cerimonial, telejornalismo, sustentabilidade empresarial, linguagem corporal, entre outros estudos. Sua experiência como repórter em jornal impresso e online em diversas editorias e em revista somam mais de nove anos. Passando ainda, pelas áreas de assessoria de comunicação e imprensa, eventos, vendas, gestão e planejamento estratégico de campanhas e ferramentas de marketing, gerenciamento de redes sociais, publicidade física e online, gestão de pessoas e gerenciamento nas ações em prol da imagem e reputação. Sempre determinada e focada, possui uma grande disposição em aprender sempre mais e compartilhar os seus conhecimentos. Acreditando que escrever histórias e dividir saberes, é uma forma de enriquecimento na bagagem de vida.