Porque os Estados Unidos apoiam o Regime Saudita?

Iraque, Líbia, Afeganistão, são exemplos de países no Oriente Médio que os Estados Unidos já enfrentou em nome da democracia e liberdade, agora tenta derrubar o governo sírio, com a mesma bandeira e mesma razão: “libertação do povo árabe” e claro sua luta contra o terrorismo.

No entanto, o que soa estranho, é que toda essa conversa de liberdade e democracia, não é mencionada, aliás é silenciada quando o assunto é voltado para Arábia Saudita.

A Arábia Saudita, uma monarquia absolutista, tem relações diplomáticas com os Estados Unidos desde 1933. O regime ultra-ortodoxo, e o governo americano “defensor global da democracia” andam de mãos dadas, afinal, disputas sociais e filosóficas ficam à parte, quando se há muito dinheiro, bilhões ou até trilhões envolvidos.

Com alianças formadas, a Arábia Saudita, autorizou na época a construção de uma gigante petrolífera americana, chamada de “Standard Oil Company”. Mas como grande parte pertencia ao Reino Saudita, ficou então conhecida como CASOC, Companhia Árabe-Americana de Petróleo, hoje em dia se chama Saudi Aramco, é a companhia mais rica do mundo, e lucra mais que a Apple, Facebook, e Micorsoft juntas.

Por volta de 1970, diversos pactos foram firmados entre os dois países, mas o que tornou essa relação ainda mais forte, foi a permissão que os Estados Unidos teve de construir bases militares dentro do território saudita, garantindo assim, não apenas a proteção para seu petróleo, mas também marcando presença numa região tão importante.

Os países árabes vizinhos consideraram a partir desse momento, a utilização da Arábia Saudita, como fator que facilitaria o intervencionismo americano na região.

Além disso, os Estados Unidos, assim como na segunda guerra treinou soldados afegãos e forneceu armas para lutarem contra a antiga União Soviética, também forneceu treinamento para milhares de soldados sauditas, assim como armamentos.

Não se vê conflitos entre os dois governos, mesmo que o atual regime saudita oprima mulheres, idosos e crianças, em todos os sentidos da palavra.

Diferente do Islamismo, o Regime Saudita, vive e prega o Wahabismo, que é considerada uma linha fundamentalista, e a mais radical pela própria comunidade islâmica.

A grande maioria dos muçulmanos no mundo, não reconhecem essa ramificação, como parte do Islamismo, e sim como uma distorção da religião, em prol de poder e interesses econômicos, tanto orientais como ocidentais.

O Wahabismo, é a base do Estado Islâmico, Al-Qaeda, Talibã, entre outros grupos terroristas.

No entanto o regime saudita, apoia estas “Madrassas” (escolas) dentro e fora de seu país, formando mentes extremistas.

Mas a pergunta que fica no ar é:

Porque apesar de tudo isso os Estados Unidos apoiam a Arábia Saudita?

Não há preocupação em libertar um povo que sofre com a pobreza, pois apesar de ter uma das rendas perca pitas maiores do mundo, está nas mãos de apenas 1% da população?

Não há preocupação de libertar as mulheres sauditas, que nem tem permissão para dirigir?

Não há preocupação em investigar os assassinatos de jornalistas, líderes religiosos moderados, e minoritária xiita?

Não há preocupação em parar o maior genocídio feito no Iêmen, pelas forças sauditas com o apoio americano?

Não, não há. Mas na Síria, Líbia, Iraque, onde a mulher dirige, veste o que quer, onde ninguém vive de forma tão miserável como na Arábia Saudita, nesses lugares, sim, vamos implantar a liberdade.

Fica claro que os Estados Unidos, assim como outros países, tentam combater aqueles que vão contra seus interesses, não importa a forma como o povo vive.

Nem mesmo os atentados de 11 de Setembro estremeceram esses laços entre os americanos e os sauditas.

Arábia Saudita? Ah, deixa para lá. E as burcas não eram para ser biquínis?

Neste caso, melhor deixar por baixo dos panos.


Chadia Kobeissi

Jornalista formada no Líbano, em Beirute, com diploma revalidado pela USP e especialização em Civilização Árabe-Islâmica. Trabalhou como Correspondente Internacional para a Rfi, "Rádio França Internacional", que transmite também para a CBN do Brasil. Fundadora da Gazeta de Beirute, e autora do livro Estado Anti-Islâmico. Teve experiências incríveis em seus 8 anos de Oriente Médio, entendendo e desmistificando para o Ocidente, este outro lado do mundo.