Vendo, troco ou compro jabutis, tigre d’água ou qualquer outro animal silvestre

Interessado neste negócio, humano? Pois é, mas os animais não estão!

Quem deseja comprar ilegalmente um animal, não sabe o quanto é sacrificante para ele, afirma o biomédico e apaixonado por animais, Wesley Silva: “A maioria morre no transporte ou um mês depois da ação. É algo muito cansativo e o transporte é realizado em péssimas condições. Imagine, por exemplo,  uma pessoa enviar um animal do Ceará para o Rio Grande do Sul, dentro de uma caixa de papel, como esse animal se sente? Como ele resiste? Como respira? Tenho certeza que um ser humano não conseguiria passar um dia nessas condições”, conta.

A compra e venda de jabutis, trigres d’água, entre outros animais tem de estar conforme a lei. E é necessário ter cuidado, pois até mesmo as espécies vendidas legalmente podem ter sido capturadas ilegalmente ou não possuir os documentos necessários para a sua venda. Esses animais em alguns casos são transportados em péssimas condições que acaba os levado a óbito. Como aconteceu com Wesley, que teve a experiência de comprar um filhote diretamente do vendedor na loja e não ter sido orientado  sobre como ele deveria tratar esse animal que veio a falecer.

“Meu filhote veio doente e morreu antes de completar dois meses após a compra. Eu tinha terrárreo, espaço cercado no quintal, sabia como tratar a temperatura, a umidade e os cuidados com a alimentação, mas não sabia dos hábitos do animal. É difícil criar um jabuti, os vendedores deveriam saber mais sobre o que estão comercializando, deveriam saber orientar sobre todos os cuidados necessários, que engloba o ambiente adequado, uma alimentação equilibrada, um local que permita exposição ao sol, assistência veterinária especializada e muito mais. Não podemos ser irresponsáveis em comprar animais tão complexo sem saber como cuidar”, completa Wesley .

Imagem de Rocheli Tugera

Além do despreparo dos vendedores, os motivos para os animais adoecerem variam, como por exemplo, o transporte sem os devidos cuidados, por vezes esses animais são escondidos em cabines de caminhões ou carros, como conta a  médica veterinária especialista em animais silvestres e exóticos, Juliana Guarnieri:

“ Muitos desses animais, geralmente filhotes bem pequenos, viajam por muitas horas sem atenção e cuidados  chegando mortos por falta de oxigênio, por falta de alimento ou por temperatura inadequada (muito baixa ou muito alta”, revela.

Segundo a veterinária, a forma como viajam já traz problemas aos animais “O simples fato de precisarem viajar escondidos e sem o mínimo de atenção já caracteriza maus tratos. Esses animais chegam com salmonela, hipovitaminose A, outras deficiências nutricionais que podem marca-los para o resto da vida, como no caso das deformidades no casco dos jabutis, entre outros indicativos de maus tratos na comercialização. E ainda, tem o fato das pessoas que adquirem um animal ilegal, muitas vezes por medo de apreensões, acabam negando assistência veterinária, o que piora os casos. E esses animais que podem estar doentes, ao serem levados para dentro de casa podem colocar a família inteira em risco”, completa Juliana.

Imagem de 13Monik69

Essa compra de um animal ilegal além de trazer riscos a saúde do comprador e de sua família, acaba refletindo no aumento do tráfico de animais em todo o país e mundo, como diz o biólogo Rodrigo Santos:

“Comprar um animal ilegal é contribuir para o tráfico de animais, seja de espécies em extinção ou não. Toda vez que um comerciante ilegal vê números positivos em suas vendas ele tende a buscar mais animais para serem comercializados, como em todo outro negócio. O que deveria ter em mente todo comprador, pois ele não está apenas adquirindo um animal que passou por maus tratos antes de chegar em suas mãos, ele contribuiu para vários outros animais viverem aquela situação”, comenta.

Um comércio que movimenta milhões de acordo com o biólogo: “Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para o tráfico de armas e de drogas. Algo que movimenta cerca de US$ 10 bilhões ao ano, sendo o Brasil responsável por aproximadamente 10% desse mercado. A Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) estima que o tráfico de animais silvestres no País, seja responsável pela retirada anual de 38 milhões de espécimes da natureza. E o pior, é que a cada dez animais traficados, apenas um chega ao seu destino final, os outros nove acabam morrendo no momento da captura ou durante o transporte” aponta.

O comprador deve se alertar para o seu papel neste comércio, ele atua no estímulo ao comércio ilegal, ele deve ter em mente que tem em sua casa um animal que foi maltratado e ele sabia, relata o biólogo:

“Neste ato, não é apenas uma compra que contribui para o tráfico, o que já causa repúdio. O comprador contribui para todos os maus tratos vividos por aquele ser vivo. Contribui para esses seres vivos serem deixados sem ar, sem água, sem alimentação, sem saúde, presos por horas em uma caixa em um veículo. Esses animais sofrem muito! Falta ao ser humano pensar nessa qualidade de vida que está proporcionando ao seu futuro pet vivenciar antes de chegar em suas mãos. O que adianta ele dizer que ama o seu animalzinho, que adora os animais, se contribui para esse tratamento de tantos outros”, afirma Rodrigo.

Porém, é possível comprar animais silvestres dentro da legalidade explica o biólogo que basta observar alguns detalhes: “O animal precisa possuir identificação pelo corpo, como anilhas, no caso de pássaros, ou microchips, no caso dos répteis. A nota fiscal deve possuir o número de registro deste animal, que apresentará os dados relativos ao estabelecimento vendedor ( CNPJ) e ao comprador, e os nomes científico e popular do espécime. Alguns locais fornecem um certificado de propriedade, algo que não é obrigatório. Lembrando que não é possível legalizar animais silvestres já comprados “, completa.

Imagem de Pexels

Carmem Lúcia, ativista ambiental fala da sua indignação ao ver o casos de maus tratos dos animais em sua comercialização: “No Brasil cada vez mais cresce o comércio de animais exóticos. Existem criadores somente para a “venda ” e costumam ir pelo lado mais fácil, dando uma alimentação pobre ( ração de cachorro, gato ,coelho etc) por ser mais fácil e mais barata . O que ocasiona algumas doenças, e priva de uma vida longa. a E alimentação é apenas um exemplo dos maus tratos sofridos pelos bichinhos. Outro triste exemplo, é o no costume de fazer uma estufa pra chocar os ovos, eles encurtam a eclosão dos ovos de nove para cinco meses, os animais nascem prematuros, acredito que seja o primeiro erro nessa sequência de maus tratos” comenta.

Imagem de Fernando Latorre

A ativista alerta que o barato não apenas sai caro, mas custa caro aos animais que pagam com suas vidas por essas ações humanas: “Um animal ilegal custa em média 150$ enquanto o legal custa 750$. Gosto de falar em questões financeiras, pois a população sente quando dói no bolso. Quando o Ibama apreende um animal ilegal a multa varia de 1200$ por cada bicho e dependendo do estado pode dar até prisão, enquanto que aos animais legais, desde que estejam bem tratados não há multa”, completa.

Imagem de Rocheli Tugera

Na lei:

DECRETO Nº 3.179, DE 21 DE SETEMBRO DE 1999.

Dispõe sobre a especificação das sanções aplicáveis condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.

CAPÍTULO II

DAS SANÇÕES APLICÁVEIS ÀS INFRAÇÕES COMETIDAS CONTRA O MEIO AMBIENTE SEÇÃO I DAS SANÇÕES APLICÁVEIS ÀS INFRAÇÕES CONTRA A FAUNA

Art 11 matar , perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida:

Multa de R$500,00 (quinhentos reais), por unidade com acréscimo por exemplar excedente de:

I – R$5.000,00 (cinco mil reais), por unidade de espécie constante da lista oficial de fauna brasileira ameaçada de extinção e do Anexo I da Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção-CITES; e II – R$3.000,00 ( três mil reais), por unidade de espécie constante da lista oficial de fauna brasileira ameaçada de extinção e do Anexo II da CITES.

§ 1º Incorre nas mesmas multas:

I – quem impede a procriação da fauna, sem licença, autorização ou em desacordo com a obtida;

II – quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural; ou

III – quem vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem cativeiro ou depósito, utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre, nativa ou em rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos, provenientes de criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente. IBAMA .

A pena é aumentada de metade, se o crime é praticado (§ 4º):

I – contra espécie rara ou considerada ameaçada de extinção, ainda que somente no local da infração;
II –
em período proibido à caça;
III –
durante à noite;
IV –
com abuso de licença;
V –
em unidade de conservação;
VI –
com emprego de métodos ou instrumentos capazes de provocar destruição em massa. A pena é aumentada até o triplo, se o crime decorre do exercício de caça profissional. § 5º. As disposições deste artigo não se aplicam aos atos de pesca.


Bruna San Freitas

Carioca, jornalista e profissional de relações públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atenciosa ao mercado, possui as certificações HubSpot e Rock Content em Produção de Conteúdo, Inbound e Outbound Marketing, além de cursos diversos como cerimonial, telejornalismo, sustentabilidade empresarial, linguagem corporal, entre outros estudos. Sua experiência como repórter em jornal impresso e online em diversas editorias e em revista somam mais de nove anos. Passando ainda, pelas áreas de assessoria de comunicação e imprensa, eventos, vendas, gestão e planejamento estratégico de campanhas e ferramentas de marketing, gerenciamento de redes sociais, publicidade física e online, gestão de pessoas e gerenciamento nas ações em prol da imagem e reputação. Sempre determinada e focada, possui uma grande disposição em aprender sempre mais e compartilhar os seus conhecimentos. Acreditando que escrever histórias e dividir saberes, é uma forma de enriquecimento na bagagem de vida.