Álbum Sobrevivendo no Inferno dos Racionais vira leitura obrigatória para o vestibular 2020 da Unicamp

Foto: Klaus Mitteldorf

A universidade divulgou o calendário do vestibular que conta com obras de Machado de Assis e Guimarães Rosa, as inscrições começam dia 1 de agosto

“Essa porra é um campo minado
Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui
Mas aí, minha área é tudo o que eu tenho
A minha vida é aqui, eu não consigo sair…”.

Milhares de jovens não sobreviveram a esse campo minado, campo que parece cada vez mais próximo de explodir a qualquer momento, e não estamos em guerra. Milhares pensaram em se jogar de vez, e o sistema fez com que muitos não aguentassem o tranco e acabaram entrando num mundo de dor sem volta. E quem consegue sair deste inferno não esquece suas origens, sua área e raízes. Os cantinhos mais obscuros das quebradas da cidade ficam gravados na mente.
Quem diria, um grupo marginalizado, criado de dentro da favela, falou simples e direto, acabou conquistando o Brasil com um manual de como sobreviver em um dos milhares de infernos espalhados pelo país. O inferno que Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e DJ KL Jay falam é a realidade de muitos brasileiros que moram nas favelas do país, onde o estado praticamente não chega, onde o saneamento básico quase não existe e a polícia que, em tese, está como um agente de segurança é vista como pior que os gângsteres tupiniquins.
Um lugar em que os pastores e as igrejas agem como se fossem psicólogos, agentes de saúde e mediadores de conflitos, fazendo um trabalho, em certo ponto, até mais importante que os órgãos públicos. Neste cenário de caos os Racionais MC´s surgem como uma verdadeira bomba, com letras fortes e uma representatividade que faz inverter os padrões de certo e errado.

“Minha intenção é ruim… esvazia o lugar
Eu tô em cima, eu tô afim… um dois pra atirar
Eu sou bem pior do que você tá vendo
O preto aqui não tem dó… “

Quando mano Brown inicia a letra já avisando que sua intenção é ruim, e isso vira praticamente um hino para milhares de pessoas, não se trata de apologia ao crime e sim de uma realidade, triste, mas verdadeira do que acontece quando as boas oportunidades ficam da ponte pra lá.
O álbum Sobrevivendo no Inferno lançado em 1997 pela gravadora Cosa Nostra saiu da marginalidade em que o Rap nacional sempre se encontrou, para a lista de obras obrigatórias do vestibular de 2020 da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que no último ranking de 2018 da revista inglesa Time Higher Education é a melhor instituição de ensino da América Latina.
Ao lado de obras como os Sonetos de Luís de Camões, O espelho, de Machado de Assis e Sagarana de Guimarães Rosa, os rappers levaram uma nova realidade para a academia, mais uma vez invertendo a lógica.
O lançamento do livro “Sobrevivendo no Inferno” que aconteceu em São Paulo e lotou o teatro do SESC 24 de Maio no centro da cidade, com uma platéia que cresceu ouvindo o som dos Racionais e se reconhecem nas histórias.
No evento rolou um bate papo com Acauam Oliveira, autor do prefácio do livro, o rapper Rashid, que vem de uma nova geração do Hip Hop brasileiro influenciado pela obra dos Racionais, e foi mediada pela jornalista e escritora Bianca Santana. No final rolou um pocket show com a rapper Drik Barbosa, cantando as músicas do álbum, mais uma que tem nos músicos do Capão Redondo uma inspiração.


Capa do álbum Sobrevivendo no inferno de 1997

Sobrevivendo no Inferno, é apenas um disco que conta a realidade das favelas brasileiras, naturalmente existem outras importantes obras que representam também uma população que por muito tempo nunca esteve devidamente representada.
Carolina de Jesus, por exemplo, mulher, preta e sem estudos, escreveu ‘O Quarto De Despejo’ em 1960, livro que mostra o dia a dia da realidade de uma favela de São Paulo. O sucesso de vendas fez o livro ser traduzido em mais de dez idiomas.
Tanto os Racionais quanto Carolina de Jesus são apenas exemplos de quem viveu e sobreviveu aos infernos espalhados pelo país, e hoje são obras que ajudam a entender e salvar vidas de quem ainda está preso nesta triste realidade. É nossa literatura ganhando nova cara e representatividade.


Felipe Nascimento Cruz

Paulistano, com formação em jornalismo e publicidade. Um ex jogador de futebol que acredita que a comunicação pode mudar o mundo.