Passeata na Av. Paulista, reúne brasileiros e árabes em prol da Palestina

Nesta última sexta-feira (31), um grupo de brasileiros e árabes se reuniram na Av. Paulista, onde fizeram uma passeata, relembrando o dia Internacional de “Al Quds” no árabe, que significa Jerusalém em português.

No evento anual pessoas do mundo inteiro saem às ruas protestando pelos direitos dos palestinos. Nos países árabes, há manifestações gigantescas, e no Ocidente apesar de bem menores também ocorrem.

Cartazes de “Palestina Livre”, “Israel Estado Sionista”, “Campanha Global pelo Retorno da Palestina”, e outros que mostravam agressões por parte de soldados israelenses à população civil da Palestina foram levantados, enquanto ecoavam intensamente:

“Estado de Israel, Estado assassino, e viva a luta do Povo Palestino.”

Já perto do Masp, uma bandeira enorme da Palestina foi carregada, por homens, mulheres, crianças e idosos que estavam no protesto.

Crianças participaram da passeata

O ex-professor de comunicação e artes, da USP, e da PUC, Paulo Vasconcelos, que agora trabalha em seu Blog “Palavra dos Brasileiros”, também estava na passeata, e disse que “os brasileiros e os palestinos são irmãos”.

Professor Paulo Vasconcelos carrega cartaz “Palestina Livre”

Ele ainda afirmou que “Israel faz um massacre, um genocídio que o Brasil não pode apoiar.”

“Devemos ser solidários com um povo tão sofrido, é um ato de humanidade”, prosseguiu.

Nesta hora questionei, se ele achava que o povo brasileiro entende a causa Palestina, ele disse que “há brasileiros que não entendem o próprio país, ou o que ocorre em países vizinhos como a Venezuela, a Palestina menos ainda”, completou.

Nathaniel Braia, que trabalha no jornal Hora do Povo, e que fez o Livro “ O apartheid de Israel”, também estava lá.

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À esquerda Nathaniel Braia, e na direita um Senhor que nasceu na Palestina

Um senhor de origem judaica, contou que viveu em Israel, onde cursou Engenharia e pode conhecer muito bem a região, no entanto discordava das ações israelenses.

“Lá eu pude perceber um sistema de exclusão, racista, que oprime o outro”. E cheguei a conclusão que é algo muito ruim, uma agressão inegável ao povo palestino. Os filmes, as fotos, a história tudo mostra isso.”

“Assim como não é bom para o povo judeu, pois gera muitos conflitos, e enfrentamentos, e também um problema com a própria identidade, onde a maioria dos israelenses que na verdade são árabes, pois se você somar os judeus de origem árabe que viviam na Palestina antes de estabelecer um governo israelense na região, mais os judeus que vieram de Marrocos, Iraque, Líbano, Síria, isso mostra que a maioria são árabes. No entanto quem domina a parte financeira, e cultural, são os judeus de origem européia, assim sendo o judeu árabe passa a negar a própria identidade e cultura.”

“A situação já era difícil antes de 1967, mais se agravou após a ocupação da Cisjordânia e Gaza”, explicou.

“O regime israelense se apega ao Estados Unidos desenvolvendo uma política mais agressiva, e isso tem que ter um fim. Já morreu muitas gente. O ser humano deveria buscar soluções para uma vida mais produtiva, fraterna e uma coexistência pacífica. Não é bom para nenhum lado”, completou.

Acredita em uma solução? Questionei.

“A solução é difícil: ou 2 estados independentes ou 1 estado palestino laico apenas, pois a situação atual é inviável para ambos. A maior prova disso é que Israel não está conseguindo nem formar um novo governo israelense, é um regime de desencontro e de certa foma há um isolamento internacional. No entanto, tenho esperança que essa situação miserável seja superada.”

E a situação entre Brasil, Israel e Palestina, como fica? Já que no Governo de Bolsonaro, os laços com os israelenses se estreitaram e com os árabes houve um distanciamento?

“O governo brasileiro está agora alinhado com interesses de Israel, mas não deveríamos compactuar com um governo que agride outro povo, com uma ideologia militarista, muito prejudicial. Corremos o risco de perder todo um processo de amizade e exportação e importação com os árabes. Há um grande mercado de carne, algodão e outros produtos, que são vendidos pelo Brasil.

A saída para o povo brasileiro, não é fazer politica com quem se nutre de explorar os demais povos. É uma política perigosa. Quando os Estados Unidos ameaçou uma guerra contra Irã, houve uma tentativa para fazer o Brasil se juntar aos americanos. E isso é uma desvantagem para o Brasil arriscando suas alianças com outros países, como Índia, Rússia e China, e sua participação na BRICS”, finalizou.

Reação

Algumas pessoas que passaram pela Avenida, zombaram e até xingaram os manifestantes, que não responderam. Outras assistiram, filmaram e pararam para escutar os discursos.

Sheikh Rodrigo, uma dos primeiros líderes religiosos brasileiros que estudou no Irã falou durante a caminhada, e Hayet Abdallah, uma mulher importante da comunidade islâmica, fez um discurso e afirmou que “nenhum povo aceitaria ter suas terras invadidas, e questionou os presentes: vocês aceitariam?”

Todo ano, no Dia de Al Quds, milhões de pessoas protestam por uma Palestina Livre.


Chadia Kobeissi

Jornalista formada no Líbano, em Beirute, com diploma revalidado pela USP e especialização em Civilização Árabe-Islâmica. Trabalhou como Correspondente Internacional para a Rfi, "Rádio França Internacional", que transmite também para a CBN do Brasil. Fundadora da Gazeta de Beirute, e autora do livro Estado Anti-Islâmico. Teve experiências incríveis em seus 8 anos de Oriente Médio, entendendo e desmistificando para o Ocidente, este outro lado do mundo.