Arquitetura vernacular e o legado cultural dos ribeirinhos amazonenses

Quem passear pelos rios do Amazonas terá uma visão muito comum de se observar: casas feitas de madeiras e, em sua maioria com ‘pernas’. Construídas dessa forma para suportar tanto a época de cheia quanto a de seca da região, esses imóveis são conhecidos popularmente como ‘palafitas’ e são característicos das comunidades ribeirinhas.

As moradias são construídas principalmente com a madeira. E em algumas regiões, ela pode virar um flutuante caso a cheia dos rios seja intensa. As palafitas são um exemplo da chamada “arquitetura vernacular”, onde as construções usam materiais locais e estão adaptadas ao entorno.

Outra característica que essas comunidades apresentam, é a capacidade de desenvolver soluções para os problemas do dia a dia. Por possuírem somente a água do rio, as famílias coletam água da chuva para o consumo. Além disso, utilizam garrafas pets ou outros materiais que possam facilitar e amenizar o impacto dos problemas diários, como a reciclagem e para construção de muros, por exemplo.

Diante disso, as comunidades sempre são procuradas como objetos de estudo por pesquisadores, pois apresentam características que chamam a atenção e representam o estilo de vida da maior parte da população do Amazonas. Um exemplo disso é a pesquisadora Laelia Regina Batista Nogueira, que realizou uma pesquisa sobre o modo de vida dos ribeirinhos.

“A arquitetura vernacular é construída usando materiais locais e saberes tradicionais e em geral é desenvolvida a partir da observação e interação com o ambiente onde está inserida. No Amazonas, por exemplo, temos as palafitas e os flutuantes, em geral usando madeira, que são materiais tradicionais, e suas formas buscam soluções para habitar as águas da nossa região, que são marcantes e abundantes por aqui. Essas tipologias permitem que as águas e seus moradores convivam através das sazonalidades do rio- cheias e vazantes- por exemplo” diz a arquiteta.

Além do aspecto arquitetônico que essas moradias apresentam, a pesquisadora ainda destacou o baixo impacto na região. 

“Essas habitações suprem uma necessidade básica, e acredito que observar essas formas de construir seja um passo importante para a busca de edificações mais sustentáveis, visto que a compreensão do espaço habitado e a construção do ambiente de forma que edifício, lugar e homem se relacionem são essenciais no conceito de sustentabilidade. Além de mostrar a existência dessas formas de viver no mundo,a pesquisa também é uma forma de validar técnicas e tecnologias que muitas vezes são ignoradas por virem de saberes tradicionais, experiências de vida e uma interação visceral com a natureza” declara ela.

Nossa Senhora do Livramento

Outro pesquisador que realizou um estudo em uma comunidade chamada Nossa Senhora do Livramento, localizada na zona rural de Manaus, capital do Amazonas, e integrante da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Tupé, foi o arquiteto Werner Albuquerque, juntamente com o biotecnólogo João Vicente Souza e o economista Roderick Castello Branco e desenvolveram um modelo de casa ecológica para aquela região.

“Nós observamos uma questão muito característica deles – a arquitetura vernacular, como eles construíam, como era as soluções rudimentares que eles tinham de poço, para a água da chuva eles colocavam um cano cortado para fazer uma calha do telhado e num tecido esticado podia filtrar as folhas e areias, e água limpa era coletada em um balde, e utilizavam para consumo. Então, nós tentamos buscar muito esse viés do reaproveitamento, de utilizar as soluções que eles tinham e melhorar aquilo, e aí que entrava esse conjunto tão bacana, porque a gente vê uma questão econômica tão precária, e Roderick já entrou com a questão de economia, de como chegar nisso por um preço acessível. A ideia era realmente fazer uma casa DIY [do it yourself, faça você mesmo], que ele pudesse fazer com os recursos dele financeiros e com o que ele já tinha na comunidade” explica o arquiteto Werner Albuquerque.

Além de observar a arquitetura vernacular, os pesquisadores também buscaram solucionar os problemas como a falta de saneamento adequado, parasitoses, mosquitos e calor extremo. “Para as fezes propomos o sistema anaeróbico, para o poço há a coleta da água da chuva, para o acúmulo de lixo há a compostagem, pelo menos da parte de matéria orgânica, porque eles têm uma vocação agrícola e se tem uma coisa que é pobre na Amazônia é nitrogênio e fósforo, que é algo que pode ser conseguido a partir da compostagem. Alta temperatura, o Werner montou um sistema de saída do calor e o problema relacionado aos insetos, propôs-se colocar uns mosqueteiros. Então, são coisas simples, mas que estavam sendo estudadas para um ambiente modelo e tecnologias que existiam e colocadas em um lugar só” explicou o biotecnólogo João Vicente.

Apesar dessa pesquisa ter sido feita no ano de 2010, os problemas encontrados permanecem até atualmente. “Aqui na comunidade nós não temos um saneamento adequado, continuamos sem água potável e só alguns moradores possuem um poço. A água para consumo vem de garrafão que compram na cidade e a coleta de lixo é feita por garis voluntários que carregam o lixo a um posto coletivo na beira do rio e uma balsa da Prefeitura vem um dia na semana buscar. Temos energia elétrica, porém oscila bastante, no qual passamos horas e até dias sem luz” conta a presidente da comunidade Francisca Cavalcante Carvalho.Neste ano de 2019, a comunidade recebeu o projeto “Escola Ribeirinha Ecoeficiente” do Instituto de Sustentabilidade e Eficiência Energética Puxirum, com o objetivo de auxiliar os moradores a exigir melhorias no sistema de fornecimento e promover o uso inteligente do recurso, por meio de divulgação de noções de eficiência energética e de uma abordagem educativa. O projeto ainda está em fase de implementação.

Foto: Werner Albuquerque


Fabrinne Guimarães

Fabrinne Guimarães é jornalista, amazonense e reside em Manaus.