Entrevista sobre Autismo: o que é, sintomas e terapias

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que compromete as habilidades de comunicação e interação social. É comum ver familiares relatarem que seus filhos com autismo parecem comuns antes de um ou dois anos, mas de repente “regridem” e perdem as habilidades linguísticas ou sociais que possuíam antes. Para esclarecer melhor esse assunto conversei com a fonoaudióloga Danielle Damasceno, que  é autora do livro “O autismo entre nós” e idealizadora dos projetos “Inclusão possível” (onde ensina mediação escolar aos profissionais dentro das escolas) e “Papai e mamãe que brincam” (curso para pais e cuidadores). 

Rede4News: Em que fase da criança é possível identificar o autismo?

Os comportamentos se manifestam nos primeiros cinco anos de vida. Geralmente, é possível observar os sinais por volta dos nove meses de idade, quando a criança não olha quando é chamada, demonstra mais interesse em objetos do que nas pessoas (quando, por exemplo, os pais fazem gracinhas, brincadeiras, e a criança não responde com um sorriso, ou não se interessa em corresponder, não demonstrando muitas reações).

Rede4News: Quais as características do autismo?

O diagnóstico de TEA (transtorno do espectro do autismo) é baseado em uma díade: Déficits sócio-comunicativos (alteração no comportamento social, comunicação e linguagem) e repertório restrito, estereotipado e repetitivo de interesses e atividades.

Rede4News:Quais terapias são essenciais e quando elas devem ser iniciadas?

Não existe um modelo padrão de terapia. Como existem muitos tipos de autismos, então é necessário um acompanhamento individualizado, e de acordo com as necessidades de cada criança, é indicado profissionais como fonoaudiólogo, psicólogos, terapeutas ocupacionais, etc.

Rede4News: Sabemos que existem diversas técnicas no atendimento à criança autista (ABA, por exemplo). Qual técnica você utiliza?

Existem os métodos desenvolvimentistas e os comportamentais (ABA é um dos exemplos). Eu utilizo técnicas que são descritas nos métodos desenvolvimentistas, pois acredito que cada comportamento acontece por alguma razão, e por isso é necessário iniciar pela “raiz” do problema. A grande diferença entre as duas correntes, na minha opinião, é que nos métodos comportamentais o foco está na ponta do iceberg onde estamos vendo os comportamentos acontecerem, e nos métodos desenvolvimentistas, tratamos os níveis de desenvolvimento desde a base do iceberg, para que aquele comportamento aos poucos não precise acontecer.

Eu utilizo a abordagem DIR|Floortime, onde é priorizado o prazer da criança pela atividade, além do trabalho ser realizado com a família dentro da sessão de terapia.

Rede4News: Por que algumas crianças com autismo são agressivas?

A agressividade pode acontecer quando existe uma dificuldade de comunicação. Não somente com autistas. Qualquer pessoa que possui dificuldades em se comunicar pode se tornar agressiva para se fazer entender. Um bebê antes de aprender a falar, pode morder ou empurrar o outro que está tomando o seu brinquedo, por exemplo. Crianças com as mais diversas síndromes podem se tornar agressivas, nós também podemos nos tornar agressivos quando não estamos conseguindo nos fazer entender ou quando precisamos expressar algo que está incomodando muito. Assim acontece com o autista não verbal,  por exemplo, quando não é compreendido em suas demandas.

Como deve ser o papel dos pais e familiares?

O de aprender a ser o melhor terapeuta para seus filhos. Acompanhar as terapias e “colocar a mão na massa” para fazer o máximo que puder em casa, durante as outras horas que a criança não estiver nas terapias. Participando das sessões, perguntando aos profissionais como fazer para replicar aquele estímulo em casa.

E qual deve ser o papel do terapeuta com os pais?

Acolher e mostrar caminhos. O terapeuta não deve esperar e querer que os pais “aceitem” o diagnóstico. Ir por este caminho é muito perigoso, porque não existe manual onde tem escrito “qual o tempo correto de luto para cada mãe e pai”. Ele deve acolher e mostrar os caminhos de tratamento. Além disso, abrir as portas dos consultórios e mostrar na prática como fazer, para que o trabalho seja replicado em casa. Assim, o acolhimento é vivenciado no dia a dia pela família, e o foco principal, passa a ser o tratamento e os caminhos, e não o “nome” do diagnóstico em si, e o momento de “luto” dos pais.

Rede4News: No que se refere à sociedade, na sua opinião, o que precisa mudar para realmente inserir essas crianças?

A aceitação ao diferente. Fala-se muito em conscientizar, porém na prática, quando existe uma oportunidade para acolher alguém diferente numa escola por exemplo, os próprios pais dos colegas da turma se perguntam; “mas essa criança diferente poderá tomar o tempo do professor que deveria ser destinado ao meu filho” antes de pensar no quanto o seu filho é privilegiado por ganhar conhecimento e oportunidade de a prender na prática sobre cidadania por ter um colega diferente em sala de aula.


Keyla Assunção

Jornalista formada há 19 anos, mas atua na área desde 1997. Possui agência de assessoria de imprensa e comunicação e escreve sobre inclusão. No portal VivaBem (UOL) é repórter de Alimentação.