Energia solar, aliada das comunidades ribeirinhas no Amazonas

É certo que no Amazonas, a população recebe bastante luz solar diariamente, principalmente no período do verão quando ocorre as secas dos rios. No entanto, diferente da capital do estado, os moradores das comunidades ribeirinhas contam mais com essa luz natural do que com a energia elétrica, o que os levam a desenvolverem diferentes soluções para seus problemas.

Dados do IBGE mostram que 99% da população no Brasil possui acesso à energia elétrica. Porém, pelo menos 500 mil famílias ainda não são atendidas pelas distribuidoras, e dessa estimativa, 70% vive na Amazônia, principalmente nas comunidades ribeirinhas.

Pensando nisso, o projeto Escola Ribeirinha Ecoeficiente visa trabalhar o consumo consciente de energia na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, que integra a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé, na região metropolitana de Manaus. Em parceria com o Instituto Puxirum, o projeto realiza ações educativas na comunidade e está em fase de captação de recursos para construir um poço que gerará água potável para os moradores por meio do uso de placas solares.

“Nós trabalhamos num processo educativo de consumo consciente de energia e oferecemos, em parceria com outras instituições, oficinas que estejam neste universo da educação ambiental. A concepção inicial do projeto era na Escola Municipal São José 1, única escola pública da comunidade, mas acabou que quando chegamos na comunidade ele foi se transformando em um projeto de escola aberta para comunitários, não só para as crianças” explicou o diretor da Instituição, Paulo Diógenes.

O projeto iniciou em abril, e a fase do processo educativo durará até setembro. Porém, o processo de arrecadação para a construção do poço já está sendo feito.  “A ideia é construir um poço comunitário com um sistema de bombeamento a energia solar, pensando não somente na questão da oscilação energética que há na comunidade, mas na questão ambiental também. Iremos fazer um poço para dar acesso a água potável a comunidade que não tem e também fazer com que o bombeamento desse poço não produza os gases de efeito estufa, sendo totalmente solar e autônomo” esclareceu Diógenes.

Com a construção desse poço artesiano comunitário estima-se que cerca de 200 a 600 moradores sejam beneficiados diretamente e que tenha uma redução de 3.700 toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. No projeto, o poço terá cem metros de profundidade com uma bomba d’água de 9 mil litros de água por hora movida a energia solar.

Eficiência energética e educação

Paulo ainda explica que o projeto está diretamente ligado à queima de combustíveis fósseis utilizando a eficiência energética e a energia renovável para diminuir essa queima e evitar gerar o gás de efeito estufa que é prejudicial ao meio ambiente. “Quando se fala na construção de um poço para uma comunidade que para o bombeamento vai ser utilizado uma bomba a energia solar, está se dizendo que vamos deixar de usar menos um gerador de energia a óleo diesel,” afirmou. “Logo eu vou produzir menos gás de efeito estufa para garantir um direito da comunidade, um direito que está em impactos internacionais, está em agenda da ONU e que é um direito de acesso a água que todo ser humano tem”.

Ainda integrando o projeto serão oferecidos dois cursos para os moradores da comunidade, um sobre instalações elétricas e outro sobre instalação e manutenção de sistemas solares fotovoltaicos autônomos. Assim,  alguns moradores serão capacitados para realizar a manutenção do poço, o que também pode gerar alguma renda para essas pessoas. Para Paulo, a ideia é aplicar todo o projeto no Livramento para que sirva de modelo para as outras cinco comunidades pertencentes a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé.

Ciclo de Bananeira

Visando ainda o reaproveitamento da água na comunidade, a arquiteta Laelia Nogueira, da CasaCinco Projetos, realizou uma atividade na qual ensinou os moradores a construir uma fossa natural. A fossa, denominada círculo de bananeira, tem como objetivo recolher as chamadas águas cinzas (que vem da torneira da cozinha, banheiro, máquina de lavar), para ajudar no crescimento das plantações de bananeiras.

A arquiteta Laelia Nogueira junto ao círculo da bananeira que ajudará a reaproveitar águas cinzas

“Aqui na comunidade nós vemos uma grande quantidade do encanamento exposto ficando aquela água residual. Porém a ideia é criar uma destinação final para essa água sem que ela fique exposta atraindo odor. O círculo de bananeira é simplesmente uma fossa funda com bananeiras plantadas ao redor, e a água do encanamento cai nessa fossa e se torna um processo de compostagem que ajudar no crescimento da banana” diz a arquiteta.

Laelia esclarece ainda que a ideia é ensinar soluções simples e de baixo custo a comunidade para que cada morador possa aplicar em sua casa. No caso do círculo de bananeira, além de sanar odores no local onde seria deixado a água parada, o líquido será reaproveitado para nutrir a bananeira, contribuindo na plantação.

Contribuição

Para quem deseja ajudar o projeto que está em processo de captação de recurso para a construção do poço artesiano, Paulo destaca que pode ser feito através de transferência/depósito bancário. Para mais informações sobre como realizar a transferência pode-se entrar em contato através do e-mail: paulo@puxirum.org ou pelo celular +55 92 9261-4527.

Fotografias: Débora Menezes


Fabrinne Guimarães

Fabrinne Guimarães é jornalista, amazonense e reside em Manaus.