Entrevista

Como transformar uma ideia em um livro-reportagem? Como saber se minha ideia, de fato, dá uma obra? Essas e outras diversas questões serão abordadas no Curso de Livro-Reportagem desenvolvido pelo jornalista Willian Novaes.

Os mais de 15 anos de experiência divididos entre importantes redações do país e o mercado editorial fizeram com que Willian conhecesse a fundo todos os processos que envolvem o desenvolvimento de uma obra, desde a ideia até o lançamento, tornando-o um dos mais completos profissionais da editoração brasileira.

O curso, destinado a colegas de profissão, estudantes de jornalismo, escritores e entusiastas desse tipo de literatura, é resultado dessa experiência de sucesso: imerso no mundo dos livros e em contato com os principais jornalistas do país, as obras que passaram pelo crivo do jornalista venderam mais de 1 milhão de exemplares e receberam 11 indicações ao Prêmio Jabuti. 

Em entrevista sobre o curso, Willian, que também é coautor de Mascarados – A verdadeira história dos adeptos da tática black bloc, dá uma prévia sobre o vasto e complexo processo que envolve a criação de uma grande reportagem em formato de livro:

Livro-reportagem, por que a paixão pelo tema? Como surgiu?

Sempre gostei de jornalismo e livros desde que me entendo por gente. As histórias reais me atraem, acredito que atualmente mais do que nunca. O livro-reportagem é o máximo que um jornalista consegue produzir, é uma aventura profunda, saborosa e corajosa, que também pode ser muito reveladora. É muito diferente de uma notícia de jornal. E por sorte ou destino, acabei dentro de uma das poucas casas editoriais especializadas nesse tipo de obra. Foi onde me dediquei por mais de dez anos. Por ser um leitor voraz desse tipo livro, já tinha certa noção e aprendi na prática a produzir livros com sucesso editorial e comercial, o que é bem raro nesse ramo. Uni o prazer da leitura, o conhecimento adquirido como jornalista e as técnicas e formas de como produzir um livro-reportagem de qualidade que foram passadas por quem mais entende do assunto.

Antes de criar um curso com essa temática conte um pouco sobre o trabalho que você desenvolveu na elaboração de livros nesse formato.

O meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) foi um livro-reportagem – eu e mais duas amigas investigamos por um ano a vida dos jovens, tiramos nota 10 e a obra foi até escolhida num concurso estadual. O que nos deu ânimo e eu, particularmente, sempre quis escrever outros. Passei por algumas redações de jornais e revistas, daí entrei na Geração Editorial para ser assessor de comunicação, mas em pouco tempo já estava editando livros e escolhendo os próximos lançamentos, além de manter contato diário com alguns dos maiores jornalistas do país. Mais um tempo depois passei a cuidar também da parte comercial da editora e pude entender como funciona toda a cadeia produtiva de um livro. Ele não precisa ser apenas bem feito, é necessário compreender o momento de lançamento e se a ideia vale mesmo uma obra de fôlego; ter a expertise de produzir e lançar instant books. Fui “treinado” para fazer uma excelente obra que tivesse capacidade de vender, e essa é uma das etapas mais difíceis. Seja na escolha do formato da capa, do título, do projeto editorial, do release, as estratégias de lançamento e como apresentar o livro nas livrarias, o mercado editorial é muito complexo. E o melhor de tudo, talvez um dos motivos para emplacar tantos sucessos, é a linguagem do jornalista: falar de igual para igual com os autores, entender suas principais dores e anseios. A Geração Editorial é uma editora de um jornalista, então o caminho foi meio que traçado para dar certo, afinal todos ali falavam a mesma língua. Seja o autor, o editor e até mesmo o dono. 

Você acha que o Brasil, hoje, pode ter sua cultura valorizada com mais livros-reportagem? Por quê?

Com certeza. Com o tempo, essas obras passam a ter o valor de um documento histórico. A memória do brasileiro é curta e obras nesse perfil levantam temas com profundidade e clareza, muito mais apuradas do que o jornal diário e sites de notícias. Sempre vejo um livro como um fóssil do assunto abordado. Os livros do Caco Barcellos, por exemplo. Para entender a Rota (Batalhão especial da Polícia Militar do Estado de São Paulo) basta ler o clássico Rota 66. Mesmo após 30 anos do seu lançamento é possível enxergar a mesma polícia e os mesmos problemas. Outro exemplo é o Laurentino Gomes, que fez um resgate da nossa história com as suas obras (livros-reportagem sobre a corrupção brasileira e os desmandos dos poderosos). É um trabalho que quando é feito com qualidade, seriedade e profissionalismo pode se tornar referência. Histórias fakes tendem a ser esquecidas na mesma velocidade com que somem das prateleiras. O jornalismo em si é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e, atualmente, acredito que apenas os jornalistas, através de livros-reportagem, são capazes de contar com a profundidade necessária suas histórias investigativas.

Quais temas ainda são pouco explorados pelos repórteres e dariam ótimos livros-reportagem?

Falo disso no curso: os desastres de Mariana e Brumadinho, ambos em Minas Gerais. São histórias que merecem toda a atenção, mas não apenas um livro contando sobre as vítimas factuais – isso o jornalismo diário já fez. Uma investigação profunda, com mais apuração, tende a trazer dados e histórias assustadoras. As milícias também merecem uma atenção especial, elas estão se espalhando pelo país. O atual presidente e a família presidencial são outros temas intrigantes. Ou seja, temos aqui três possibilidades de best-sellers, mas essas investigações levam tempo e acabam custando caro. Por outro lado, todo esse trabalho pode trazer o reconhecimento profissional para o autor.

Quais os pontos principais tratados no curso? E que dicas são essenciais quando falamos em escrever livros desse tipo?

Falo sobre toda a cadeia de produção: desde a ideia, passando pela produção editorial até o lançamento. Também conto um pouco sobre autopublicação e uma função que está em alta: o ghostwriter. Minha proposta principal é desmistificar todo o processo, começando com uma pergunta simples: a sua ideia vale um livro? Em todos esses anos de trabalho sempre ouvi, de quase todos os jornalistas, a ideia de escrever um livro-reportagem. Em cinco minutos de conversa percebia que eles não tinham a menor ideia de como fazer um – estou falando de jornalistas premiados e reconhecidos. Maturei a ideia desse curso por anos e agora cheguei num formato bem didático e prático.

Você ensina a escrever um livro de sucesso?

Compartilho a experiência de quem editou obras que alcançaram sucesso. Foram 11 indicações ao Prêmio Jabuti, além de outras premiações, e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, mas quanto a escrever… não tenho como garantir isso, seria no mínimo pretensioso. São conselhos de como fazer o melhor possível. O imponderável é muito presente nesse mercado, mas tenho certeza que quem participar do curso vai entender como funciona o mercado editorial, como chegar na editora, quais os riscos de publicar por uma editora pequena, enfim, todos os processos editoriais. E quem sabe não surja mais um autor premiado?! Afinal, escrever é uma arte.

Qual o principal erro de um autor principiante de livro-reportagem?

Pensar que está escrevendo uma matéria clássica. Imagine ler uma matéria padrão com 300 páginas? Não faz o menor sentido, o livro não empolga. Um conselho que dou sempre é: leia os clássicos! Gay Talese, Truman Capote, Fernando Morais, Palmério Dória e, na minha opinião, o fundamental e necessário Caco Barcellos, de quem sou fã de carteirinha. Quando falo para ler é para ler, não para copiar. Cada autor precisa ter o seu estilo. Também gosto muito do texto da Daniela Arbex, Amaury Ribeiro Junior, Rubens Valente e a sensatez do Paulo Moreira Leite e da Cynara Menezes. São vários estilos e o elo em comum é que todos são premiados e ótimos vendedores de livros. Outro autor que gosto muito é o Rogério Pagnan, o livro dele desnuda o sensacionalismo presente nos grandes crimes midiáticos. O Pior dos Crimes é uma obra necessária para todos os estudantes de jornalismo e profissionais da área. O livro é questionador da primeira à última página, talvez o grande papel do livro-reportagem.

Como foi o fato de ser coautor e ter entrado em algumas polêmicas por causa do seu livro?

Ser editor é muito mais calmo. Os problemas aparecem depois, com processos judiciais e outras dores de cabeça. Mas lançar Mascarados foi revelador, senti na pele o que nossos autores passam. O livro é uma investigação sobre os black blocs, em 2013 esse era o assunto do momento.  Eu e os outros autores do livro, Esther Solano e Bruno Paes Manso, encaramos polêmicas complicadas, mas no final foi tudo muito válido. Acredito que me tornei um profissional melhor e também aprendi a não cair mais em certas pegadinhas. O curso surgiu a partir de todas essas experiências, preparado por quem editou livros polêmicos, de sucesso, premiados, marcando presença em todas as grandes redes de livrarias do país, e que também escreveu uma obra de alcance nacional. Talvez exista outros dois ou três com toda essa expertise no mercado, e posso garantir que quem estiver no curso, no mínimo, vai aprender o que não fazer na hora de sentar com um editor.

Saiba mais sobre o curso Site: https://livroreportagem.com/