Escolas desenvolvem projetos de valorização das línguas indígenas, que correm risco de extinção no Brasil

O Brasil não fala apenas o português. Poucos sabem, mas há ainda 274 línguas indígenas (das 1,2 mil que existiam no início da colonização). Deste total, 190 correm o risco iminente de desaparecer, segundo o Atlas das Línguas em Perigo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O desaparecimento das línguas indígenas é um dos aspectos que devem ser lembrados neste dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, que acontece durante o Ano Internacional das Línguas Indígenas.

“São vários os motivos para que isso ocorra: o contato com outras culturas, a idade avançada dos falantes e a falta de valorização dos povos indígenas influenciam para que as línguas acabem desaparecendo ao longo do processo histórico”, explica Myriam Tricate, coordenadora nacional do Programa de Escolas Associadas (PEA), braço da UNESCO nas escolas de educação básica de todo o mundo. A Rede PEA existe em 180 países, com 11 mil escolas. No Brasil, o programa reúne 569 escolas – segunda maior rede, atrás apenas do Japão.

Preocupado com a questão, a Rede PEA vem estimulando a inclusão de escolas indígenas no programa. Hoje, há 4 escolas associadas, além de outras candidatas. No Encontro Nacional, que ocorre nos dias 11, 12 e 13 de setembro em Ouro Preto (MG), três escolas mostrarão suas experiências. Entre elas está o Colégio Estadual Indígena Coroa Vermelha (BA), que trabalha o tema da linguagem constantemente na grade curricular. “Uma das formas de se preservar a língua é por meio do seu uso constante. Por isso, trabalhamos seu uso nas aulas, em poesias e músicas” explica Adil Santos Moreira, coordenadora do PEA no colégio.

A Escola Diferenciada de Educação Infantil e Ensino Fundamental Aba Tapeba (CE) e a Escola Indígena Tenente Antônio João (AM) são as outras duas escolas indígenas associadas ao PEA. Além disso, diversas escolas da rede trabalham o tema da cultura indígena em sala de aula.

Para Daniel Munduruku, professor, escritor e filósofo indígena, é preciso que as escolas resgatem nas crianças a sensação de pertencimento e autoestima de ser brasileiro. “É fundamental que os alunos percebam a importância de sermos um país tão diverso e múltiplo. A partir daí fica mais orgânico trabalhar temas como culinária, dança e língua indígena. Também é necessário transformar o olhar dos próprios professores sobre o assunto”, afirma. Ele é um dos palestrantes do Encontro Nacional do PEA UNESCO.


JB Cardoso

Jornalista e escritor, nascido no Rio Grande do Sul e radicado na Bahia, escreve sobre quase todas as editorias, preferindo sempre contar histórias. Viciado em informação, faz dela um meio de vida. Casado com Thábatta Lorena e pai de Pilar.