Hidrelétrica na Amazônia causa morte da floresta, aponta estudo

Segundo o Instituto de Estudos Socioambientais, há pelo menos 21 hidrelétricas em funcionamento na Região Amazônica; e até 2023, outras vinte deverão entrar em operação, que somam R$ 100 bilhões em investimentos. 

No entanto, um estudo publicado em abril deste ano na Science of the Total Environment, mostra que a construção da barragem de Balbina, no estado do Amazonas, tem alterado o fluxo dos rios, causando inundações e destruição da floresta. 

O estudo analisou um total de 9.800 km2 de floresta de igapó – um tipo de floresta que fica alagada durante a época de chuvas e que é característica da região amazônica. Os pesquisadores detectaram uma área de 11 km2 com alta mortalidade de árvores, localizada ao longo de um trecho de 80 km do rio Uatumã. O estudo estimou ainda que, no mesmo trecho, muitos dos igapós vivos restantes na floresta podem estar atualmente sofrendo mortalidade, já que a floresta fica agora permanentemente alagada, e não só durante a época das chuvas. A conclusão é de que 29% das florestas de igapó no trecho de 80 km do rio Uatumã têm sido impactadas desde a construção da barragem de Balbina.

“Na Amazônia, os rios sofrem uma alteração no nível. Ou seja, uma vez por ano, eles sobem e descem, perfazendo assim um pulso de inundação de até 10m de altura. E as árvores são adaptáveis a essa condição. O que significa que a reprodução e a estratégia de vida já são ligadas a esse evento. A hidrelétrica de Balbina interferiu no pulso de inundação natural do rio e causou um desequilíbrio desse pulso. Essas florestas, agora, a jusante da barragem, não recebem mais esse pulso natural que eles são ao longo do tempo adaptáveis. Então, isso foi um fato estressante para elas, tanto por ficarem sem receber o pulso ou por receberem um pulso muito prolongado ou imprevisível causado pela barragem”, diz Angélica Resende, autora da pesquisa e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).   

Mas os impactos causados pelas construções de hidrelétricas não se restringem apenas aos rios e as florestas, e atingem também o clima. A hidrelétrica de Balbina, por exemplo,  emite 11 vezes mais gases-estufa do que uma termoelétrica com a mesma potência. Isso acontece porque, ao ser construída, não se realizou a supressão da vegetação, isto é, retirar uma porção de vegetação deste espaço, com o objetivo de usar a área anteriormente ocupada pela vegetação para fins alternativos, e portanto, quando uma floresta é coberta pela água, troncos, folhas, ramos e galhos entram em decomposição e passam a liberar altas concentrações de gases poluentes, entre eles o metano, cujo impacto sobre as mudanças climáticas é 20 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2).

“Os igapós emitem naturalmente o metano, porém, as hidrelétricas causam o aumento dessa emissão e as árvores possuem uma quantidade considerável de carbono estocado em sua biomassa. Quando [a árvore] morre, consequentemente ela apodrece e começa a liberar esse carbono para a atmosfera. Então, se você somar esse carbono que as árvores mortas emitem, e mais o metano que os lagos de hidrelétricas emitem, as hidrelétricas, portanto, estão causando bastante impacto ao meio ambiente”, complementa Angélica. 

“E essas áreas onde ocorreram as mortalidades massivas, são dominadas por umas poucas espécies arbóreas, que são espécies muito adaptadas a esses ambientes de alta inundação. Portanto, essas espécies ficam mais ameaçadas com essa mortalidade, uma vez que elas vão desaparecendo desse ambiente e isso é prejudicial para o equilíbrio da floresta, principalmente, porque essas espécies servem de alimento para a fauna local. Portanto, além de emitir carbono para a floresta, ela afeta todo o ecossistema dessa região”, finaliza Angélica Resende.

A pesquisadora pontuou ainda que a construção da Reserva de Desenvolvimento Sustentável, RDS de Uatumã, logo após a construção da barragem de Balbina, atraiu moradores para a região. No entanto, houve um aumento no número de mosquitos, proliferação de doenças, contaminação e espécies de peixes desaparecidos. 

Desde 1960 há uma lei que exige a “limpeza das bacias hidráulicas, dos açudes, represas ou lagos artificiais” por parte das empresas responsáveis pela construção de hidrelétricas. O Ibama também obriga o resgate da fauna por uma norma baseada no artigo 225 da Constituição Federal, onde diz que “proteger a fauna e a flora, são vedadas, na forma da lei, para as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”.

Na última quarta-feira, 21, durante divulgação de pacote de novas privatizações, o governo anunciou a retomada do plano para erguer grandes hidrelétricas na Amazônia. Constam na lista, as hidrelétricas Bem Querer, em Roraima, e Tabajara, em Rondônia.

As hidrelétricas construídas no Complexo do Rio Madeira, por exemplo, que inclui as usinas Jirau e Santo Antônio, em Porto Velho (RO), causaram em 2014 a enchente histórica de 19,14 metros de altura do Rio Madeira. O número é 20% acima da cota de emergência estabelecida por órgãos públicos da região. A Agência Nacional de Águas (ANA) realiza o acompanhamento diariamente da região Amazônica e os boletins podem ser acessados online.

Foto por Seabirds/CC BY 3.0 mostra árvores mortas perto da barragem de Balbina.


Lucas Sairaf

Lucas Sairaf é amazonense, acadêmico de jornalismo, social media e designer