Literatura tratada como obra de arte

A Raphus Press, editora paulistana, publica literatura fantástica com tiragens limitadas e feitas de forma artesanal

Por séculos, livros foram verdadeiros artigos de luxo. Durante a Idade Média, quem possuía livros eram apenas nobres e alguns ricos comerciantes, ou em suma, quem detinha um alto poder aquisitivo. E uma curiosidade é que muitos desses proprietários sequer sabiam ler e precisavam de outras pessoas para desempenhar esta tarefa. Os livros eram obras de arte escritos à mão e se levava meses para que um exemplar ficasse pronto. Porém, com a invenção da prensa de Gutenberg no século XV, o processo foi acelerado e aperfeiçoado no decorrer dos séculos seguintes.

Atualmente, a maioria dos livros que chega até as livrarias, pelo menos os títulos mais famosos, são produzidos por grandes editoras que contam com equipes inteiras de profissionais cuidando das várias etapas, até a impressão em gráficas com máquinas impressoras de última geração. O livro se tornou um bem de consumo e o mercado editorial, multimilionário, busca atender à demanda e se adaptar às exigências de uma sociedade consumidora que tem seus hábitos em transformação, principalmente devido às novidades tecnológicas. O cenário também não é dos mais animadores. Segundo dados da pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL), o mercado editorial brasileiro encolheu 25% entre 2006 e 2018.

Exemplo do trabalho editorial realizado pela Raphus Press

No entanto, apesar deste cenário de crise e de mega players, há editores que marcham na direção contrária e apostem em projetos que prezam por, além da qualidade literária, um produto mais artístico e diferenciado. A Raphus Press, editora paulistana fundada em 2017 por Alcebíades Miguel Diniz e sua esposa, Soraia Balduino, foca na publicação da chamada literatura fantástica contemporânea marginalizada, ou seja, autores pouco conhecidos, principalmente no Brasil. Segundo Diniz, esta proposta editorial vem da “noção de samizdat, de literatura clandestina ou exilada, que busca existir apesar de tudo, com formas de expressão experimentais, inventivas, complexas”.

Uma das inspirações da editora é o movimento chamado “Private Press, inaugurado por William Morris e sua Kelmscott Press que buscava produzir livros únicos que transportassem seus leitores para um universo que ultrapassa os limites do conteúdo bruto pela construção do livro como um objeto estético no mesmo patamar de uma catedral gótica”, conta Diniz. As edições são limitadas e numeradas. Não há reimpressões e nem reedições. E este é um outro diferencial da editora, que tem seu público em um nicho bem específico. As obras são publicadas em inglês, de modo a atingir um público mais amplo e não apenas o brasileiro, além de internacionalizar os autores publicados. “Nossos escritores residem nos mais diversos países: Inglaterra, EUA, Suíça, Israel, Japão, Dinamarca, etc. Muitos deles, inclusive, em trânsito, exilados nesses países. Por conta dessa percepção de trânsito, optamos por publicar o nosso material em inglês”, explica o editor.

Editora preza pelo aspecto artístico em suas obras

Autores brasileiros também têm espaço no leque da editora, cujas obras são traduzidas para o inglês. “Buscamos levar muitas produções brasileiras pouco conhecidas no Brasil – e em outros países de língua francesa ou espanhola – para o universo dos falantes de língua inglesa. Já traduzimos criações de Lima Barreto, João do Rio, e outros autores inclusive jovens escritores brasileiros ainda pouco conhecidos, como Luiz Nazario, Fábio Waki ou Fernando Klabin”, diz Diniz. Apesar do idioma ser, por vezes, um fator de impedimento no mercado, editoras que busquem novos caminhos, alheios ao mercado tradicional, conseguem sobreviver, garante o editor.

Isso é possível devido à nova configuração de comercialização de livros, que tem a Internet como principal plataforma de venda, aliado a parceiros como a Coesão Independente, uma plataforma que concentra diversas editoras independentes em busca de soluções para contornar a crise mercadológica atual. No caso específico da Raphus Press, além das vendas diretas em seu site, a editora comercializa por meio de alguns parceiros como a Ziesings Books, nos EUA, e o Sebo Clepsidra, no Brasil, que fica em São Paulo – mas envia para todo o país. Novas opções de distribuição devem ser lançadas em breve, porém de uma forma que seja compatível com sua proposta editorial, de algumas poucas dezenas de exemplares por edição.

Primeiro lançamento em português

Buscando aumentar o alcance de suas obras, a editora está preparando sua primeira obra em português. Bilingue, na verdade, pois estará em português e em inglês. O conto O Baluarte Tomado, é escrito pelo jovem autor estadunidense Damian Murphy. A trama se passa em Antuérpia e trata das possibilidades de expansão da consciência, “de certa forma da fuga dos cercos que acossam o cotidiano de todos nós”, conta Diniz.

À peça central, será acrescentada uma narrativa introdutória, um trecho dos diários de Tolstói em Sebastopol – cidade famosa pelo cerco que sofreu. A obra também trará uma breve alegoria final, A Casamata, escrita pelo próprio editor, Alcebíades Diniz, que fala dos cercos físicos e mentais, e todo seu corolário de barbárie, aos quais o ser humano está exposto.

Esta obra está sendo produzida por meio de financiamento coletivo no Catarse, cuja campanha está disponível neste link. Basta clicar e escolher uma das formas de colaboração.


André Gobi

Historiador pela UNESP, especialista em Jornalismo Científico pela UNICAMP. Foi editor e jornalista de publicações voltadas para ciência e tecnologia. É um dos sócios na Pau a Pique Produções, produtora de documentários.