Outubro Rosa

Câncer de mama e a destruição da autoimagem

Segundo dados do INCA de 2018, aproximadamente 60 mil mulheres desenvolvem a doença por ano Brasil

O diagnóstico de câncer de mama para muitas mulheres é considerado uma sentença de morte. Segundo o INCA (Instituto Nacional do Câncer), a doença é o tipo mais comum entre elas em todo o mundo, representando quase 25% dos casos.

Ao receber o diagnóstico, é comum a mulher sair do consultório arrasada e sem esperança de recuperação. Essa condição ainda é mais cruel quando identificada a necessidade iminente de mastectomia (retirada total ou parcial das mamas).

“Por esse motivo, o acompanhamento psicológico é essencial para que a paciente possa entender o seu momento e como os medos e as angústias interferem na resposta positiva ao tratamento. É comum estágios depressivos e isolamento social. A doença é encarada como uma ação destruidora, que chegou para puni-la”, explica o psiquiatra especializado em medicina psicossomática e hipnose, Leonard Verea.

Segundo ele, a mutilação do corpo feminino em uma região tão significativa como as mamas faz com a mulher tenha uma visão distorcida de si, como uma sensação de menor valor perante às outras tanto na vida pessoal quanto profissional. “Adaptar-se à nova imagem do seu corpo exige um esforço bastante grande para o qual, muitas vezes, não está preparada. Por isso, ela precisa de apoio de alguém confiável. O companheiro tem papel importante nesse momento.”

A terapia de casal é uma alternativa indicada porque também para o homem é um momento delicado. O companheiro será instruído a entender a condição da mulher e terá respaldo para auxiliá-la nos momentos mais desafiadores, como o pós-operatório e as sessões de quimioterapia. “A queda dos cabelos também mexe muito com o feminino. As adeptas de longas madeixas tendem a perder a identidade e a referência do que é belo”, explica o psiquiatra.

Estudos recentes apontam que 70% das pacientes relatam ter medo do retorno da doença em forma de metástase. A maior parte diz também não ter mais perspectivas e planos para o futuro. Nesse sentido, o processo terapêutico ajudará a paciente a se reintegrar às vidas social, profissional e íntima. “A terapia faz parte de um processo. Uma doença como essa tem o poder de mudar trajetórias, pensamentos e comportamentos. A paciente, com certeza, passará a encarar a vida de forma diferente”, comenta Verea.

Segundo a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2017), pessoas que tem acompanhamento psicológico durante o tratamento do câncer apresentam redução significativa do medo de recidiva. Comprovou-se também a melhora na qualidade de vida, diminuição da ansiedade, sofrimento e angústia.

Verea afirma que o apoio de uma equipe multidisciplinar, o acolhimento pela família e amigos são fundamentais para o processo de cura, bem como a confiança no terapeuta escolhido. “O amadurecimento e cumplicidade estabelecida nesse relacionamento será um fator de peso para a condução psicoterapêutica do problema”, finaliza.

Dr. Leonard F. Verea é médico, formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, Itália. Psiquiatra especializado em Medicina Psicossomática, Hipnose Clínica e também Médico do Trabalho. Participa entre outros, do Grupo de Estudos sobre Hipnose da UNIFESP, Universidade Federal do Estado de São Paulo.