Desastre ambiental: óleo cru se derrama sobre as praias nordestinas

“Um dia a areia branca seus pés irão tocar e vai molhar seus cabelos a água azul do mar”. Desde o mês passado, nas praias nordestinas, as areias estão menos brancas e as águas menos azuis. Manchas de óleo vêm aparecendo constantemente desafiando moradores, ambientalistas e autoridades. A origem segue sendo investigada.

Se Roberto Carlos fosse compor agora a música que fez para homenagear Caetano Veloso, quando o baiano estava exilado na década de 1970, teria que colocar, talvez, uns versos a mais. “Um dia a areia branca seus pés irão tocar e vai molhar seus cabelos a água azul do mar. Algumas manchas escuras, porém, você vai encontrar”.

Para o Ministério Público Federal (MPF), a União está sendo omissa ao protelar medidas protetivas e não atuar de forma articulada no Nordeste – Foto: Divulgação

Inicialmente as manchas de óleo apareceram no litoral da Paraíba e foram se alastrando para diversos municípios dos nove estados do Nordeste. Na quinta-feira, dia 17, o Ibama anunciou que, até o momento, 187 praias em 77 municípios dos nove estados do Nordeste foram atingidas por manchas de petróleo no oceano. A substância encontrada é a mesma em todos os locais: petróleo cru. O fenômeno, que tem afetado a vida de animais marinhos e causado impacto nas cidades litorâneas, já atingiu mais de150 praias. Até o último fim de semana, quase 150 toneladas do material haviam sido recolhidas. É o maior desastre ambiental nas praias em mais de 30 anos.

Em território baiano as manchas apareceram no início de outubro. Além de Itacaré, houve registros em Vera Cruz, Itaparica, Salvador, Jandaíra, Lauro de Freitas, Conde, Camaçari, Entre Rios, Esplanada e Mata de São João.

Devido ao problema, o Governo do Estado decretou estado de emergência. O decreto permite liberar fundos para os municípios mais prejudicados, que, até então, têm custeado a limpeza das praias com recursos próprios. No total, as manchas já atingiram 187 localidades da região, sendo 12 unidades de conservação do país. Além disso, afeta o turismo e as comunidades pesqueiras.

Ação no MPF

Para o Ministério Público Federal (MPF), a União está sendo omissa ao protelar medidas protetivas e não atuar de forma articulada no Nordeste, visto a gravidade do acidente e dos danos causados ao meio ambiente. Por abriu ação civil pública pedindo uma participação mais efetiva dos órgãos federais no caso.

O documento aponta responsabilidade, diretrizes e procedimentos para o governo corrigir vazamentos de petróleo, com o intuito de “minimizar danos ambientais e evitar prejuízos para a saúde pública”. A multa diária pedida, em caso de descumprimento, é de R$ 1 milhão.

A ação foi assinada pelos procuradores Ramiro Rockenbach e Lívia Tinôco (Sergipe), Raquel de Melo Teixeira (Alagoas), Vanessa Cristina Gomes Previtera Vicente (Bahia), Nilce Cunha Rodrigues (Ceará), Hilton Araújo de Melo (Maranhão), Antônio Edílio Magalhães Teixeira (Paraíba), Edson Virgínio Cavalcante Júnior (Pernambuco), Saulo Linhares da Rocha (Piauí) e Victor Mariz (Rio Grande do Norte).

Na Bahia

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), recebeu na última quinta-feira (17), prefeitos e representantes de oito municípios baianos atingidos pelas manchas de óleo. Além de discutir a situação e compartilhar informações, a reunião visou o ajustamento de ações de limpeza das praias e mangues afetados, assim como o recolhimento e o descarte apropriado do material poluente.

 “Durante a reunião fomos informados sobre Itaparica e Vera Cruz, chegando a 10 municípios na Bahia atingidos. São 155 toneladas de óleo já retiradas das praias, além do óleo que já chegou a manguezais e do óleo que está retido nas pedras. A grande preocupação do Estado e dos municípios é a falta de informações por parte das autoridades federais competentes. Lembrando que a responsabilidade por águas oceânicas, tanto ambiental quanto a segurança, pertence ao governo federal. Mas até agora nem os municípios nem os estados têm qualquer informação sobre o que foi feito e o que está sendo feito para descobrir a forte primária do vazamento e qual a situação no mar”, afirmou Rui.

Participaram do encontro os prefeitos de Camaçari, Conde, Entre Rios, Jandaíra, Lauro de Freitas, o vice-prefeito de Esplanada e um representante da prefeitura de Salvador. O governador ainda acrescentou que “o óleo continua chegando diariamente. Então, reforçamos o pedido para que as autoridades federais tomem providências em relação à descoberta do que está acontecendo. Ou, pelo menos, informem aos estados e municípios o que estão fazendo até agora. O que a Marinha está fazendo? O que a Petrobras fez até agora? O que o Ibama está fazendo? Essa é a grande indagação que temos feito”.

Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba) encontrou um destino interessante para o resíduo: transformar o petróleo recolhido em carvão – Foto: Divulgação

Reciclagem

Enquanto a origem do óleo não é determinada, um projeto do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba) encontrou um destino interessante para o resíduo: transformar o petróleo recolhido em carvão. Membros do projeto “Compostagem Francisco”, que trabalha com processos de compostagem acelerada, testaram a técnica e obtiveram bons resultados, segundo matéria do Correio24horas.

“Bioativadores criados aqui no instituto aceleram a degradação da matéria orgânica e, em 60 minutos, o petróleo é degradado e transformado em carvão”, explica a professora doutora Zenis Novais da Rocha, responsável pelo projeto. Com ela, trabalham na transformação do resíduo quatro estudantes – três de graduação e uma de doutorado.

Mais de 1000 homens, helicópteros, aviões e barcos estão sendo empregados nas operações de retirada de óleo das praias do Nordeste – Foto: Agência Brasil

Posição federal
Do seu lado o governo federal afirma que está tomando todas as medidas para a identificação, o recolhimento e a destinação correta do óleo que atinge o litoral do nordeste brasileiro, além das investigações para descobrir a origem do vazamento.

As ações do Plano Nacional de Contingência (PNC) e do Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA) estão em pleno funcionamento. A operação mobiliza vários órgãos do governo federal, como IBAMA, ICMBio, Polícia Federal, ANP, Petrobras, Exército Brasileiro, Força Aérea Brasileira, Universidades Federais e mais todos os recursos disponibilizados pelos estados e municípios, além do terceiro setor.

Mais de 1000 homens, helicópteros, aviões e barcos estão sendo empregados nas operações de retirada de óleo das praias do Nordeste, desde o início de setembro.

“Estamos fazendo o monitoramento por meio de satélites brasileiros e estrangeiros e aeronaves com radar. Helicópteros do Ibama e Marinha fazem a verificação visual. Todas as formas de monitoramento estão sendo adotadas”, afirmou o Ministro Ricardo Salles quando realizou uma vistoria em áreas do litoral nordestino atingidas pela mancha de óleo. Ele sobrevoou a costa dos estados da Bahia, Sergipe e Alagoas.

“Não há nenhuma demora de nenhum órgão. Todos estão trabalhando de maneira ininterrupta, desde o aparecimento da mancha no dia 2 de setembro. Não se poupou nenhum esforço”, reforçou. O problema, segundo ele, é o caso sem precedentes. “Já se sabe que o óleo não é brasileiro, tem origem venezuelana, mas não se conhece o modo como vazou para o litoral brasileiro”, argumentou.

A estratégia é avançar com as operações, com o monitoramento permanente, com o recolhimento do material, a destinação adequada, mobilizando todos os órgãos do governo federal, dos estados e municípios.

Consumidores que tenham comprado pacotes de viagem ou hospedagem para as praias do Nordeste que foram afetadas pela mancha de óleo têm o direito de cancelar ou remarcar a reserva – Foto: Divulgação

Turismo

Segundo a Agência Brasil, consumidores que tenham comprado pacotes de viagem ou hospedagem para as praias do Nordeste que foram afetadas pela mancha de óleo têm o direito de cancelar ou remarcar a reserva, sem a necessidade de pagar multa. Segundo orientação da Fundação Procon de São Paulo, para isso o consumidor deve entrar em contato com a empresa contratada e pedir o cancelamento ou a remarcação.

Como ainda não começou a alta temporada nas praias nordestinas, a esperança dos operadores do turismo na região é que até o mês de dezembro as manchas tenham desaparecido. Se isto não acontecer, o impacto negativo é incalculável.

No jogo desta segunda-feira, contra o Ceará, o tricolor usará camisas “manchadas” de óleo para protestar – Foto: Divulgação

Futebol

O Esporte Clube Bahia se manifestou sobre as manchas de óleo que invadem as praias nordestinas. No jogo desta segunda-feira, contra o Ceará, o tricolor usará camisas “manchadas” de óleo para protestar no Estádio Pituaçu. “Por medidas de redução do impacto ambiental e pela punição aos responsáveis, nosso uniforme estará manchado de óleo no jogo de amanhã – como as praias do Nordeste”, dizia a postagem no domingo, com a foto da camisa especialmente confeccionada para a ocasião.

De onde vem o óleo?

A origem das manchas ainda está sob investigação. Algumas hipóteses apontam que ele é proveniente do vazamento de um navio-tanque. Uma pesquisa da UFBA (Universidade Federal da Bahia) afirmou que o líquido corresponde a um dos tipos de petróleo produzidos na Venezuela, resultado igual ao relatório produzido pela Petrobras e confirmado pelo Ibama. O país latino-americano, porém, nega a responsabilidade.


JB Cardoso

Jornalista e escritor, nascido no Rio Grande do Sul e radicado na Bahia, escreve sobre quase todas as editorias, preferindo sempre contar histórias. Viciado em informação, faz dela um meio de vida. Casado com Thábatta Lorena e pai de Pilar e Cléo.