Governo divulga ações para incentivar produção de gás que causa danos ao meio ambiente

Em julho deste ano, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou uma resolução para abrir o mercado de transporte e distribuição de gás natural. Entre as medidas, está a recomendação para que a Petrobras deixe de controlar a venda de gás natural; e a adoção de incentivos para os estados abrirem mão do monopólio de distribuição. Segundo o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, as medidas possibilitam o livre comércio de gás no país e poderão gerar uma queda de até 40% no preço em um prazo de três anos. A resolução também abre a porta para a exploração do chamado gás de xisto, um tipo de gás natural cujo uso preocupa os ambientalistas. A medida vai na contramão da tendência mundial a reduzir o uso de combustíveis fósseis como forma de evitar o aquecimento global e atingir as metas do Acordo de Paris.  

Um estudo do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural, realizado em 2016, estima que o Brasil tem capacidade para, até 2050, aumentar em mais de três vezes a sua produção de gás natural não-convencional, aquele cuja extração é mais complexa e requer um maior investimento. Dentre os gases não convencionais, está o gás de xisto, um gás natural encontrado quilômetros abaixo da terra. 

No entanto, a extração do gás de xisto implica riscos ambientais. Para extrair o gás, é utilizada uma técnica conhecida como fracking, ou fracturação hidráulica. Primeiro é necessário perfurar um poço de até dois quilômetros de profundidade para que sejam bombeados milhões de litros de água em alta pressão no interior da rocha, misturada a produtos químicos e areia. O procedimento cria fraturas estreitas, de modo que o gás contido na formação possa fluir para o poço. 

Um dos problemas associados ao fracking  é a necessidade contínua de abertura de novos poços, para garantir que a extração do gás de xisto seja rentável, uma vez que após dois ou três anos, a quantidade de gás cai consideravelmente. Mas além disso, há também riscos ambientais.

Segundo explica o doutor Luiz Fernando Scheibe, especialista em Mineralogia e Petrologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), um dos grandes problemas que existe, é a contaminação da água que volta para a superfície. “Uma grande parte da água injetada fica na rocha e a outra parte volta para a superfície extremamente poluída, porque são utilizados muitos compostos químicos; e a água ao entrar em contato com a rocha, dissolve muitos metais e outras substâncias como os hidrocarbonetos, um risco para os ecossistemas aquáticos e para a saúde humana” explica Scheibe.

De acordo com Scheibe, há um processo de tratamento químico para se libertar desses materiais na água, mas que por ser um procedimento complexo e caro, as empresas que atuam nos Estados Unidos, por exemplo, têm preferido injetar essa água novamente em outras rochas através de processos inversos em poços perfurados. Mas esse processo de injeção tem criado outros problemas, como o aumento significativo no número de terremotos de pequena intensidade.

Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade Duke, da Carolina do Norte, e publicada pela revista da Academia Americana de Ciências, a PNAS, revelou que aumentou drasticamente a contaminação da água potável associada à extração de gás de xisto. 

Ao Portal G1, Robert Jackson, professor de ciências ambientais da Universidade Duke e autor principal deste trabalho, disse que as fontes de água potável nos lares tinham sido poluídas com diversos compostos tóxicos.

Ao tentar incentivar a extração de gás de xisto, o governo brasileiro se inspira nos Estados Unidos. Lá, a exploração desses recursos não-convencionais levou a um boom na produção de petróleo de xisto, chegando a atingir uma produção de 760 mil barris por dia em 2013, o nível mais alto em mais de 30 anos. A utilização do xisto como um recurso energético foi uma estratégia para baratear a produção de energia, já que a maior economia do mundo até então importava boa parte daquilo que consumia.  

Porém, uma diferença essencial entre o sucesso do gás de xisto nos Estados Unidos de outras áreas do mundo, é que o aproveitamento do gás depende da pré-existência de uma rede muito ampla de aproveitamento de distribuição do gás. O sistema para transporte de gás natural no Brasil é 50 vezes menor que nos EUA.

A ideia de extrair gás de xisto no Brasil não é nova. Já em 2013 o governo Dilma deu os primeiros passos para estimular a extração, mas foi barrado judicialmente após a oposição de grupos ambientalistas.

Na Amazônia, onde estão localizadas algumas das jazidas de gás de xisto, o Ministério Público Federal do Amazonas recomendou, em 2015, que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) retirasse de licitação a exploração de petróleo e gás natural situadas na Bacia do Amazonas. O MPF sustentou que a exploração nessas áreas pode causar sérios danos ao meio ambiente e às populações indígenas. 

Em regiões mais remotas, a possibilidade do uso do gás de xisto seria a produção de energia elétrica. Para isso, é necessário construir termelétricas para queimar o gás. Mas ainda assim, precisaria de uma rede de transmissão de energia. Por outro lado, a greve global pelo clima levou recentemente milhares de manifestantes às ruas contra as mudanças climáticas. A exigência de um “impedimento mundial” de que não devemos depender de energia elétrica que seja obtida a partir da queima de combustíveis fósseis é uma tentativa de frear as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Imagem: poços de fracking em Wyoming (EUA). EcoFlight


Lucas Sairaf

Lucas Sairaf é amazonense, acadêmico de jornalismo, social media e designer