No Amazonas, o petróleo chegou e o impacto ambiental também

“Eu acordava cedo para pescar, sempre frequentava o igarapé com meu avô quando criança, hoje em dia não tem como pescar mais”. O comentário de Kleberson Souza, morador da zona leste da cidade de Manaus, refere-se aos anos em que frequentou o igarapé do Mauazinho, um dos inúmeros trechos de água que atravessam os bairros da cidade. 

O local onde Kleberson costumava frequentar era nas margens do rio Negro, próximo a refinaria Isaac Sabbá, que foi a primeira empresa de petróleo do Amazonas, fundada em 1957. Ela produz, entre outras coisas, gasolina, óleo diesel, óleos combustíveis e asfalto. A presença da refinaria foi muito importante para a expansão da Zona Franca de Manaus, e também atende os estados do Pará, Amapá, Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima. 

O jornalista Elson Farias, que publicou matérias sobre o início das operações da refinaria em Manaus, afirma em uma de suas reportagens que o empreendimento provocou uma queda no custo dos combustíveis fósseis. A gasolina baixou o preço em 21%, o querosene 28% e o óleo diesel 58%. Isso possibilitou o crescimento econômico da região e contribuiu para a geração de novos empregos. Porém, esse desenvolvimento também deixou um impacto negativo. 

Em uma manhã nublada de sábado, a costumeira rotina da família Souza continuava, a mãe varria a calçada de casa enquanto Kleberson preparava o café. Momentos antes, logo que iniciamos a entrevista, expliquei-lhe que queria conhecer sobre a sua história morando próximo a refinaria. Ele me respondeu com um olhar cabisbaixo “não há vantagens em ser vizinho dali”.

No ano de 2018, um caso de vazamento de óleo no rio Negro foi divulgado. Aconteceu no Porto da Ceasa e foram derramados 1.800 litros de óleo combustível com alta concentração de enxofre que se estendeu por mais de cinco quilômetros. Segundo a Fiscalização Ambiental do órgão (Gefa), o vazamento percorreu o lado direito do rio Negro, passando pelo bairro Mauazinho, se aproximando da estação de captação e distribuição de água do Programa Águas para Manaus (Proama), que abastece de água a cidade. Não foi o único caso de vazamento na refinaria, que também sofreu uma explosão em 2014 que custou a vida de um funcionário.

Em outro bairro da cidade, o Colônia Antônio Aleixo, a 14 km da refinaria, também há sinais de degradação ambiental causada pelo petróleo. Concretamente na Praia das Lajes, onde o período de movimentação populacional maior é durante a seca do rio Negro, entre agosto e janeiro. Nesta temporada, as rochas e a areia, antes cobertas pelo rio, começam a aparecer. Mas, além da beleza natural o que fica mais visível, são os lixos que se encontram presos nas margens da praia e os constantes rastros de vazamento de óleo.

Poluição na Praia das Lajes. Foto: Suammy Saiury

Em nota, a Águas de Manaus, empresa responsável pelo abastecimento de água em Manaus, informou que intensificou o controle de qualidade da água no Complexo Ponta das Lajes e Estação de Tratamento de Água Mauazinho.

Os impactos ambientais nestas zonas próximas à refinaria vão desde as etapas de exploração, passando pela geração de resíduos (sólidos e líquidos), com eventuais vazamentos acidentais em terra, rio ou igarapé no transporte e destinação final dos produtos.

A falsa promessa do progresso

A cidade de Manaus é uma das capitais do Brasil que teve maior desenvolvimento econômico nas últimas três décadas, com grande crescimento urbano e industrial. Mas o desenvolvimento econômico de Manaus favoreceu a poluição dos rios e igarapés presentes na zona urbana, tornando ameaça à saúde pública da população e ao equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

O geógrafo Joylgon Pinto, afirmou na sua dissertação de mestrado que “a importância dentro de toda a cadeia produtiva do petróleo não se resume apenas ao ponto de vista estratégico. No ponto de vista ambiental, as refinarias são geradoras de poluição. Elas consomem grande quantidade de água e de energia, produzem grande quantidade de despejos líquidos, liberam diversos gases nocivos para a atmosfera e produzem resíduos sólidos de difícil tratamento e disposição”.

O Censo do IBGE contabilizou mais de 16 mil moradores dos bairros próximos ao rio Negro em 2010, pessoas que vivem diariamente sendo afetadas pela contaminação das águas.

Moradores como Kleberson, deixaram de fazer a rotineira pesca aos finais de semana por conta dos constantes vazamentos de óleo que atingem a região próxima à sua casa. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) orienta que a população não consuma ou tome banho nas águas no rio Negro atingidas pelos vazamentos.

“Meu avô me contava sobre como era bom pescar nesta parte do rio Negro, quando eu era criança, me lembro vagamente, íamos cedo pegar a canoa e voltávamos com ela cheia de peixe: aruanã, pacu, tucunaré entre outras espécies. Eu entendo que a refinaria gerou e ainda gera muitos empregos para Manaus, mas tudo que tenho agora virou lembrança, os peixes não voltam mais aqui.”

Além de Manaus, em 1986 foi descoberto em Coari, a cerca de 650 quilômetros de Manaus, o óleo de Urucu, um dos mais leves produzidos no país e com a melhor qualidade. Isso facilita o processamento nas refinarias e permite o aproveitamento na produção de gasolina, nafta petroquímica, óleo diesel e Gás Liquefeito de Petróleo.

O complexo de Coari, produz 35.387 barris de petróleo por dia e 13,9 milhões de metros cúbicos de gás natural, além de 1,2 tonelada de GLP, o equivalente a 112 mil botijões de gás de cozinha, e abastece a Região Norte e parte do Nordeste.

A princípio, com a descoberta do complexo, os lucros do petróleo deveriam sanar os impasses sociais e de infraestrutura da população de Coari. Entretanto, essa convergência tornou a população da cidade vítima dos estorno de recursos pelos políticos locais.

Em 2015, moradores de Coari, fizeram denúncias sobre a poluição do óleo diesel e blecautes de até 3 horas diárias que estavam ocorrendo no município.

O Conselho de Administração da Petrobras aprovou, no dia 26 de abril de 2019, a venda da refinaria Isaac Sabbá e do complexo de Urucu. A decisão do Conselho foi divulgada sendo um fato relevante para a distribuído do mercado. As iniciativas, segundo a Petrobrás, fazem parte do Plano de Negócios e Gestão 2020-2024, que tem previsão de aprovação e divulgação no quarto trimestre deste ano.

Kleberson olhava fixamente para o rio Negro naquela manhã, sentou nas margens do rio, no chão de barro e apontou “Todo aquele lugar ali, que vai ficando distante quando vejo parado daqui, eu ficava lá, naquela direção, e me sentia livre, radiante e extremamente feliz, hoje, eu não sou mais o mesmo, não possuo essa felicidade, nem eu e nem o rio Negro, mudamos.”

Foto: Divulgação/Petrobrás