Derramamento de petróleo na Amazônia pode diminuir em 50% o brotamento de plantas aquáticas

Wérica Lima trabalha na assessoria de imprensa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Sabe-se que as plantas aquáticas são importantes em todos os ecossistemas de mares, rios e lagos do mundo, mas elas chamam atenção principalmente em algumas regiões como Amazônia e Pantanal pelo grande número de espécies e responsabilidade na produção de matéria orgânica. 

Presentes principalmente nas várzeas amazônicas, (regiões de águas barrentas associadas aos rios que nascem nas regiões andinas e pré-andinas ricas em sedimentos com nutrientes), as plantas aquáticas são fundamentais na reprodução dos peixes e na alimentação de animais como peixe-boi, tartarugas e capivaras e formam um grupo de mais de 400 espécies.

 Segundo a botânica especialista em plantas aquáticas da Amazônia e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Maria Teresa Fernandez Piedade, as plantas favorecem um conjunto de organismos.

 “Elas servem de abrigo para peixes, principalmente em estágio jovem, pois formam tramas grandes de raízes onde os peixes se escondem. Muitos organismos não se alimentam diretamente delas, mas dos bichos que ficam escondidos, ou de outros componentes como plânctons que habitam nesses locais. Alguns animais as comem diretamente, um exemplo é o peixe-boi que se alimenta majoritariamente de plantas aquáticas. Esse tipo de alimento é importante para uma espécie emblemática em risco de extinção.”

Diferente das árvores que retém o carbono absorvido nos troncos e raízes, o CO2 retido pelas plantas circula rapidamente no sistema aquático e essa dispersão acelerada contribui para liberação dos nutrientes encontrados na matéria orgânica. 

Impactos do petróleo de Urucu nas plantas aquáticas da Amazônia 

Estudos realizados no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia demonstram por meio de simulações, quais os impactos que o petróleo de Urucu (cidade localizada a 600 km de Manaus) transportado pelo rio Amazonas traz a espécies dominantes do cenário aquático da região, além dos impactos nas áreas alagáveis.

Na Amazônia, as várzeas dos rios (Amazonas, Urucu e Solimões) são as mais sensíveis às mudanças climáticas e aos impactos de combustíveis fósseis. Esta sensibilidade está ligada à fertilidade da região por meio da ciclagem de nutrientes.

A ciclagem de nutrientes é o ciclo de reincorporação dos compostos presentes em massas dos seres vegetais ao ecossistema. Raízes mortas das plantas aquáticas e lavagem da vegetação pela chuva são os principais mecanismos responsáveis pela transferência dos nutrientes acumulados na fitomassa (massa dos seres vegetais) ao solo.

O petróleo afeta fisicamente as plantas e age como uma barreira, impedindo a entrada de luz nos tecidos, o que desencadeia intoxicação através da absorção desse combustível nas plantas e raízes.

O petróleo de Urucu, conforme o artigo Organismos aquáticos e de áreas úmidas em uma Amazônia em transição, tem composição leve e por isso atua a nível celular nas plantas, alterando a permeabilidade e/ou interrompendo processos.

Nos experimentos apresentados pelo artigo acima, os pesquisadores utilizaram quatro espécies predominantes do ecossistema em diferentes níveis de contaminação e períodos do ano para analisar os impactos desse tipo de petróleo..

A Canarana (Echinochloa polystachya), muito utilizada até hoje pelas populações ribeirinhas na alimentação dos animais e que serve de alimento para espécies de animais aquáticos, é uma planta de alta produtividade nos ecossistemas da várzea. 

No experimento com esta espécie, 460 ml de petróleo por metro quadrado do recipiente foi o suficiente para diminuir a capacidade de rebrotamento em 50%. Já as que brotaram reduziram 50% da biomassa com apenas 120 ml no solo.

O impacto também depende da época de brotamento. Em temperaturas mais elevadas de setembro a novembro, a planta apresenta menor índice de crescimento e biomassa, diferente das épocas de julho a setembro. Isto se dá pela redução da viscosidade da água?, que favorece a absorção do combustível pelas plantas.

A dosagem estimada para matar 50% da Canarana é de 470 ml por metro quadrado  em quatro dias, além do impacto que o combustível causa no desenvolvimento das sobreviventes.

Fora a Canarana, outras espécies têm alta sensibilidade, como a Pistia stratiotes, conhecida como alface d’agua. A biomassa desta macrófita é reduzida em 50% após 21 dias de exposição e a totalidade mortal de todas as plantas da mesma espécie ocorre em 98 dias, com dosagens de apenas 0,30 L m-2 do petróleo de Urucu.

Segundo explica Maria Tereza, um derramamento de petróleo quando o rio está enchendo é preocupante, pois atinge não só o brotamento das plantas, como também as áreas alagáveis conforme os pulsos de inundação (seca e cheia) ocorridos na floresta amazônica.

 “Se um derramamento acontecer no período por exemplo, de águas baixas ou intermediárias, além da expansão desse petróleo atingir as plantas que estão crescendo, ele chegará a todas as planícies alagáveis com a subida das águas. Isso contaminaria rapidamente os solos argilosos. As toxinas presentes nesses compostos dos óleos do petróleo seriam incorporadas ao sistema, lembrando que tudo o que é incorporado no solo e no sistema, entra depois no lençol freático”.

Além de todo o impacto ecológico e ambiental que o petróleo pode causar, também é preciso pensar nas populações ribeirinhas que dependem do rio para sobreviver. 

“O petróleo vai remanescendo no sistema e pode chegar até as margens florestadas usadas para agricultura. É um impacto econômico, ecológico, ambiental e de saúde, pois as populações ribeirinhas que vivem nessas regiões seriam contaminadas” explica Piedade.

Importância da Várzea na produção de alimentos orgânicos

 A produção de alimentos orgânicos na Amazônia é predominantemente realizada pela agricultura familiar. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no artigo Agricultura Familiar do Amazonas: Conceitos, Caracterização e Desenvolvimento, cerca de 74,4% dos postos de trabalho do meio rural advém da mão de obra familiar. 

Em época de vazante, boa parte das famílias migram para locais onde desenvolvem atividades de pesca e plantação. A explicação para tal fenômeno se dá pela fertilidade dos elementos que a decomposição das plantas aquáticas libera, enriquecendo as planícies alagadas. Por isso, a fertilidade das várzeas é maior e permite a produção de alimentos sem necessidade de insumos adicionais de adubação e gastos.

O ribeirinho aproveita bem o ciclo de inundação. Em porções mais baixas das planícies inundadas que ficam menos expostas, é utilizado as plantas como a melancia. Já as plantas que demandam tempo mais longo, eles plantam nas planícies mais elevadas da várzea que alagam só alguns meses, como pepino, feijão de metro, pimentão, couve, hortaliças e outros produtos agrícolas” explica a pesquisadora Piedade.

Plantas aquáticas são alimento, moradia e local de reprodução para peixes

 Os peixes são os animais mais afetados com a falta e contaminação de plantas aquáticas. As plantas atuam como produtores primários na fonte de alimentos, liberando também nutrientes na água por meio de excreção ou decomposição. 

Responsáveis por sombrear, servem de abrigo para peixes recém-nascidos e pequenos animais, conforme explica a bióloga e mestranda em ciências pesqueiras, especialista em sanidade e reprodução de peixes na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Anna Souza.

“As plantas aquáticas desempenham um papel extremamente importante no funcionamento do ambiente, sendo capazes de estabelecer uma forte ligação entre o sistema aquático e o ambiente terrestre que as rodeia. Elas proporcionam sombreamento, fundamental para muitas formas de vida sensíveis às altas intensidades de radiação solar e estão tão intimamente relacionadas ao funcionamento dos ambientes aquáticos. A preocupação com a preservação destas espécies é fundamental para a manutenção do ecossistema” afirma Anna Souza.

Nas fases iniciais do peixe, a presença dos hidrocarbonetos do petróleo nas plantas aquáticas e na água interrompe e dificulta a respiração mesmo quando os animais ainda estão nos ovos, pois impede as trocas gasosas. Quando os peixes conseguem sobreviver, podem ter má formação esquelética. 

A má formação torna o indivíduo vulnerável a predadores e a contaminação de espécies comestíveis pelo petróleo e seus compostos, torna os peixes impróprios para consumo dos seres vivos”, Acrescenta Souza.

 Plantas aquáticas e mudanças climáticas

As plantas aquáticas além da ameaça do petróleo, possuem impactos reais do aquecimento global. Com a mudança dos pulsos de inundação (seca e cheia) nos últimos trinta anos que ficaram mais intensos e extremos, as espécies que acompanham o ritmo de enchente dos rios também têm se modificado. 

Com a mudança nos ciclos das chuvas, toda a biota passa a ser modificada, trazendo competição entre as espécies de plantas, e algumas como da espécie Heliconia, podem predominar mais que outras.

“Por meio de um estudo de competição identificamos que a Heliconia teria mais sucesso do que outras plantas com tendência a diminuir. São sinais que precisam ser estudados e simulados, mas só a combinação de CO2 na atmosfera que é usado para fazer fotossíntese, juntamente com a mudança do pulso de inundação mudando o espaço e tempo de crescimento disponível das plantas, já podemos esperar alterações como desaparecimento de espécies e um crescimento exacerbado de outras” explica a pesquisadora do Inpa, Maria Teresa Piedade.

Imagem: Flickr/Celso Abreu


Wérica Lima

Natural do Amazonas/Brasil, estudo jornalismo e atuo no âmbito científico e tecnológico. Apaixonada em biologia, animais (especialmente aves), arte, cultura indígena, tecnologia social, comunicação na disseminação da ciência. Gosto de fotografar, escrever e minha inspiração profissional é a Amazônia.