Excesso de carros contribui para a poluição do ar em Manaus

Fumaça, barulho, correria, assim é a rotina do cobrador de ônibus Luan Siqueira, 23, que trabalha há mais de um ano no transporte público em Manaus.

“Manaus está ficando muito pequena para o grande número de veículos nas ruas, os quais vem crescendo cada vez mais ao decorrer dos meses. As consequências disso já estão bem visíveis, olhando pro céu conseguimos ver a diferença, já não é mais azul, está se tornando cinza por conta do excesso de carros e da grande poluição transmitida pelo transporte público,” disse o cobrador.

E a afirmação de Luan não está errada. Em Manaus, a frota de veículos no ano de 2017, ultrapassou os 700 mil, contabilizando na cidade o crescimento de 2 mil veículos novos por mês.

Para Geraldo Alves, doutor em planejamento de transportes e professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o excesso de automóveis circulando nas ruas está na contramão da solução de mobilidade urbana para Manaus.

“À medida que as ruas vão se amontoando de automóveis vão tornando mais difícil o transporte coletivo”, disse o especialista.

Trânsito em Manaus – Suammy Saiury

As coisas poderiam ser diferentes se estivesse sendo implementado o Plano de Mobilidade Urbana de Manaus, um projeto elaborado em 2015 para melhorar os deslocamentos na cidade. Algumas das propostas do plano são “promover e apoiar a implementação de sistemas cicloviários seguros, priorizando aqueles integrados à rede de transporte público” e “incentivar e difundir medidas de moderação de tráfego e de uso sustentável e racional do transporte motorizado individual”.

Porém, até agora, o plano ainda não saiu do papel. Bem pelo contrário, as vendas de automóveis aumentaram em 15%, de acordo com dados do passado mês de setembro.

A grande quantidade de veículos na cidade não só dificulta os deslocamentos, mas também tem um enorme impacto ambiental. A queima de combustíveis fósseis, como a gasolina e diesel utilizadas pelos automóveis, é a principal fonte de gases de efeito estufa no planeta. Para se ter uma ideia, um veículo movido à gasolina libera, em média, 120 gramas de gás carbônico (CO2) por quilômetro rodado. Isso equivale a 45 quilos de carvão queimados.

Além do CO2, os veículos liberam também material particulado, um conjunto de poluentes constituídos de poeiras, fumaças e todo tipo de material sólido e líquido que se mantém suspenso na atmosfera por causa de seu pequeno tamanho, e que faz muito mal à saúde.

O cobrador de ônibus Luan, já começou a sentir os impactos dessa nova realidade em seu ambiente de trabalho.

“Quando eu termino meu turno costumo passar um lenço em meu rosto para fazer a limpeza por conta de eu ser cobrador de ônibus e diariamente eu pegar essa poeira o lenço fica totalmente escuro, e as vezes eu sou obrigado a trabalhar de máscara para preservar minha saúde”.

De acordo com o levantamento divulgado em maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada 10 pessoas no mundo respiram ar poluído. No Brasil, ele é responsável pela morte de 50 mil pessoas a cada ano, por causar doenças como câncer de pulmão, ataque cardíaco e derrame cerebral.

Para o cobrador de ônibus Luan, no futuro o Brasil estará com índices de poluição bem maiores.

“De aqui a 5 anos todo mundo será obrigado a andar de máscara. Aqui na Zona Norte já podemos ver quando amanhece e anoitece a fumaça, não só de queimadas, mas também de carros e ônibus, tudo misturado. E de aqui há alguns anos não vai ser suportável inalar esse ar.”

Fotografias: Suammy Saiury