POR ONDE ANDA MEU AMOR?

Uma análise do comportamento humano e a situação atual do coronavírus na sociedade

Por: Denilza Munhoz- Psicanalista

Ontem meu filho foi ao mercado para as compras da semana, já que o isolamento como regra de combate para evitar a propagação do Corona vírus é a melhor saída encontrada pelos governos, até o momento. Dali a algumas horas, meu filho retornou e relatou-me um fato interessante: Havia muitos velhinhos fazendo as compras e estavam assustados!

Desde aquela citação feita pelo meu filho, bateu-me uma dor enorme, seguida de certas indagações: Por que será, que os velhinhos estão nos mercados e não os filhos, netos, sobrinhos, outros familiares ou até vizinhos? Que está acontecendo com nossa sociedade? Para onde estão indo nossos sentimentos de amor próprio e de compaixão?

Lembrei-me da minha tenra infância na companhia de duas mulheres de fibra: minha mãe e minha avó. Cresci com elas. Primeiro, delas vieram os ensinamentos de carinho, coisa da nossa cultura brasileira tão expressiva na forma de beijar aqui, beijar acolá. Depois vieram as lições de respeito, já que o boa noite ou o bom dia não podiam passar sem as palavras “Deus te abençoe”. Foi ali, que me foram instaladas com muita propriedade no inconsciente as bases do cuidado comigo e com o outro ao meu redor. A regra era simples, curta e básica: atenta para não ser egoísta ! Fosse um pedaço de pão se houvesse mais alguém no ambiente ou uma ajuda para algum velhinho no banco do ônibus. Posso até ser considerada medíocre pela nova pedagogia, mas acredito como psicanalista, que tais lições estão fazendo falta a esse mercado materialista, daí a dificuldade de ficarmos em casa quando a regra é se isolar para não contaminar outros. É tempo de vírus e eu me questiono a todo instante se de repente não nos chegou um duro professor para nos ensinar sobre relações socais?

O Planeta cresceu em algumas áreas sob a ótica da economia (vide países de primeiro mundo), permaneceu paradinho em outros ( olhe a [Africa !), mas de um modo quase similar em todos os continentes parece envolvido por uma carapaça invisível de embotamento das emoções. Vira e mexe surgem na mídia agressões com crianças, mulheres, idosos. Viramos de ponta cabeça e já não sabemos mais o que é realmente sentir ? Esse sentir de verdade. To falando do olfato e não do nariz, da visão e não dos olhos, do toque e não das mãos, da alma e não do corpo. Precisamos resgatar as origens e com urgência !

Dia desses vi um senhor passar com uma gaiola nas mãos e havia dentro daquele pequeno espaço um passarinho. O pequenino estava calado, nem um piado. Saí ao encontro daquele homem e lhe indaguei qual o crime cometido pelo passarinho, se era algo da ordem da pedofilia, psicopatia ou estupro. Ele sem entender me respondeu: Não entendi. Disse-lhe, então: Deve ter sido muito grave, uma vez que ele recebeu a pena máxima de condenação sem direito a recorrer a um advogado. O homem calou-se. Pensou e relatou nunca ter ouvido alguém falar assim de um passarinho. Depois teve a ousadia de me dizer, que o passarinho não sabia mais voar. E eu disse: Se eu lhe prender em uma prisão onde você não possa caminhar, você perderá a capacidade de sair andando? . Ele disse, Não ! Pois é, como um pouco de liberdade, logo após alguns dias poderá voltar às suas caminhadas e corridas. Ele concordou, mas não sem muita vergonha seguiu com o passarinho calado rua acima.

Mas o que há de comum entre a história da minha infância, o passarinho da gaiola e o tal Corona vírus dos nossos dias? Tudo. Fazemos de conta que os problemas dos outros são só dos outros. Deixamos de nos importar de verdade com o que está bem perto de nossos olhos e muitas vezes, até dentro de nossos lares. Criança de rua? Não é a minha criança; velhos em abrigos? Não são meus avós; animais presos ? não são meus; e assim seguimos. Parece, que o narcisismo englobou o Planeta inteiro, sobrando aqui, ali, alguns poucos da espécie original, que se agrupava em prol do bem comum e vivia do coletivo.

O vírus está em nosso meio, provocado justamente por nossa corrida desenfreada ao consumismo e invasão ao habitat dos outros. Certamente, pagamos por essa ousada ambição. É um ciclo completo, lembra ? Então, não há saída. É hora de você que me lê, acordar do sonho do faz de conta, botar as mãos na rédea da sua própria vida para ser enturmar de verdade. Portanto, fique em casa, assim você estará poupando sua vida e a de outros. Mas se você mora com seus pais, avós, parentes mais velhos, abra a mão de seu tempo e vá às compras por eles. Treine seu amor, que com certeza seus dias de vida serão fantásticos !

Mas se você não estiver conseguindo doar-se… bem, é tempo de olhar para trás para ver o que deu errado por lá e consertar a imagem no inconsciente. Saiba que, enquanto há vida há esperança. Busque ajuda para trabalhar seu amor próprio.

Abraço


Denilza Munhoz

Graduada em letras com inglês, poliglota, especialista em Metodologia do Ensino Superior, Psicanalista, hipnoterapeuta, Coach, Conferencista par grandes empresas internacionais. Viajante constante e presente em mais de 22 países onde esteve para aprender sobre o ser humano.