Covid-19 e a dizimação de comunidades ribeirinhas no Amazonas

O dia ainda amanhecia, quando Dona Francisca, 42 anos, saia da comunidade São Sebastião do Boto, área rural próximo ao município de Parintins, para comprar suprimentos na cidade. Com uma lista de itens e o dinheiro que pegou com os outros moradores da comunidade, o papel era um guia do que comprar quando chegasse em Parintins “nas escondidas”.

O Amazonas, estado mais amplo do país (maior que Colombia, Peru, Ecuador) com quase 1,6 milhão de km², é o maior da Amazônia, tendo como transporte vital, a navegação. Para conter a covid-19, que até agora ultrapassa 4 mil casos no estado (a maioria na capital, Manaus), e 351 mortes, o transporte fluvial de passageiros está interrompido, pelo governo do estado desde março.

Jerfeson Caldas, coordenador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) da região norte explicou à AFP por telefone que:

“O transporte de cargas (insumos, medicamentos e alimentos) não foi alterado. Mas o regular de passageiros, sim, estando restrito a excepcionalidades, como emergências e urgências médicas, serviços essenciais, como bombeiros, policiais, iluminação pública, telefonia”.

A medida está afetando diretamente as comunidades próximas aos municípios, das quais o transporte fluvial é a única forma de locomoção e acesso, tendo em vista que em sua maioria é escassa a venda de alimentos e itens básicos de saúde aumentando cada vez mais a necessidade da locomoção de ribeirinhos nos municípios próximos mesmo que seja “por de baixo dos panos”.

Segundo dados do IBGE no Amazonas existem 64 municípios, 3,8 milhões de habitantes e 728 mil (20,1%) vivendo em áreas rurais próximas de municípios que já testaram positivo para o novo coronavírus . Além dos problemas estruturais, saneamento básico, locomoção, agora essas comunidades vivem um novo problema, a pandemia. E como explicar para esses grupos familiares isolados sobre o problema que o Brasil enfrenta hoje?

O boletim epidemiológico divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) no dia 28 de abril, aponta que 47 municípios já têm casos confirmados, são eles:  Manacapuru (321); Parintins (119); Itacoatiara (101); Iranduba (99); Tabatinga (83); Carauari e Maués, com 66 casos cada; Santo Antônio do Içá (61); Coari (58); Autazes (47); Careiro Castanho (46); Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva, com 36 casos cada; São Paulo de Olivença (31); Tefé (27); Anori (25); Benjamin Constant (23); Amaturá (20); Lábrea (19); Tapauá e Tonantins, com 18 casos cada; Maraã (14); Manaquiri (11); Careiro da Várzea (9); Boca do Acre (8); Beruri, Novo Aripuanã e Urucará, com 7 casos cada; e Silves (6).

A capital do Amazonas, Manaus é a única do estado todo que consegue concentrar os casos de internação mais graves em UTIs, além da problemática relacionada a distância dos municípios, Manaus também se torna a única que tem aeronave com UTI para transferir pacientes graves se tornando a salvação para resgatar pessoas com covid-19 em cidades isoladas. De todos os municípios do Estado, nenhum tem estrutura hospitalar de alta complexidade para receber pacientes graves, o que comprova cada vez mais o descaso dos governantes em relação ao Norte do país.

Leitos de UTIs no SUS

Imagem de estudo da FGV sobre leitos de UTI do SUS.

Em Parintins  existem apenas seis leitos de terapia semi-intensiva, e já houve solicitações de transferência de pacientes com suspeita de Covid-19 e quadro clínico de problemas respiratórios graves, dois deles já entubados e enviados para Manaus. Com a pandemia e a falta de estruturas de hospitais qualificados nos municípios os povos tradicionais, quilombolas, indígenas e ribeirinhos, serão os principais atingidos pela pandemia, proliferando extinções em massa em comunidades que estão isoladas na Amazônia.

UTIs aéreas são usadas para socorrer doentes mais graves de coronavírus em cidades isoladas do AM para Manaus. Imagem: Secom/AM

Já anoitecia quando Dona Francisca, com muitas sacolas de alimentos na mão subia no pequeno barco que a transportava, cuidadosa, driblava a fiscalização.

“É arriscado, eu sei, mas lá falta comida, remédio, não tem onde comprar, o único jeito é pegar o barco e ir perto do motor, pular na beira de Parintins e pedir proteção de Deus, estamos isolados na comunidade, na verdade sempre estivemos e hoje somos mais esquecidos do que antes.”