Copa de 70: Zagallo foi inovador, garante jornalista em pesquisa de Mestrado

Neste mês de junho, completam 50 anos em que a Seleção Brasileira conquistou de maneira inédita o tricampeonato mundial de futebol (Copa do Mundo), que na ocasião foi disputada no México. O fato, considerado um dos mais importantes na História do esporte nacional, ganhou notoriedade na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), interior da Bahia, quando o pesquisador Leon Vanderley, ao fazer parte do Programa de Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade, apresentou um trabalho de pesquisa com o titulo Desenho e Futebol: Vínculos e Contribuições a partir da Copa de 1970, que aborda os esquemas táticos desenvolvidos pelo técnico Mario Lobo Zagallo para conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil, frente ao favoritismo da Inglaterra, campeã em 1966 e as demais seleções campeãs desta competição (Itália, Uruguai e Alemanha).

A escolha desses desenhos táticos poderia ser justificada pela conquista do tricampeonato do Brasil, sagrando-se a primeira seleção a alcançar esta conquista mundial, na qual foi à última Copa disputada por Pelé, único atleta a ganhar três edições desta competição, além de ser reconhecido, pela mídia especializada como atleta do século, hoje, o rei do futebol. Uma seleção que teve como técnico o bicampeão mundial como atleta, Zagallo, como treinador, em um momento de polêmicas envolvendo o governo brasileiro. Além de todas as seleções que já havia ganhado este certame participarem desta edição, esta é uma copa em que a seleção do Brasil continua no imaginário da população brasileira, seja os atletas e ou na forma ou formas de jogar.

Zagallo colocou no mesmo time cinco craques de camisa 10, entre Gerson (de frente)

O time, craques reconhecidos no país foram levados ao patamar de mitos. Já consagrado, Pelé teve a companhia de estrelas como Gerson, Tostão, Rivelino e Jairzinho. Todos vestiam a camisa 10 em seus times de origem, mas aceitaram jogar em posições diferentes com a camisa amarela. O agrupamento de vários craques juntos levou a seleção a vencer o torneio de forma invicta. Ao treinador Mario Lobo Jorge Zagallo coube criticas e elogios. Parte dos aficionados por futebol garante que aquele time nem precisava de treinador, pela quantidade de craques que despunha, e tacham até hoje Zagallo de mero “entregador de camisas”.

Mas, por outro lado, há aqueles que veem no técnico uma dose de audácia e eficiência, pois estabeleceu um desenho tático que tornou possível a participação de um elenco estrelar no mesmo time. Um desses é o jornalista Leon Vanderley, que defendeu, em seu mestrado, os desenhos táticos desenvolvidos pelo técnico Zagallo para conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil. A dissertação faz parte do Programa de Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), interior da Bahia.

Leon, em seu trabalho, lembrou que com a conquista, o Brasil desbancou a favorita Inglaterra, campeã da copa de 1966, assim como os demais campões anteriores: Itália, Uruguai e Alemanha. “pela primeira vez todos os campeões estavam presentes no mesmo torneio”, aponta.       

A pesquisa

Em sua pesquisa, Leon Vanderley analisou quatro desenhos táticos do futebol, sendo dois reconhecidos pela FIFA e dois que são considerados variações dos seis já existentes, que são simbolicamente representados por combinações numéricas e duas letras, (1-1-8; WM; 3-5-2; 4-2-4; 4-3-3; 4-4-2). Ao longo da história do futebol, apenas um sistema tático foi representado por letras. Segundo o pesquisador, os quatro desenhos táticos trabalhados por Zagallo na disputa da Copa de 70, (4-2-4, 4-3-3, 4-5-1; 4-2-3-1), foram determinantes para o sucesso da seleção brasileira. “Estas variações permitiram que ele colocasse no mesmo time cinco ‘camisas 10’ para atuarem em um esquema tático grupal, em detrimento do resultado da tática coletiva”, argumenta o pesquisador. Com isso, Gerson virou um volante, Jairzinho um ponta direita, Rivelino um ponta esquerda e Tostão um centro avante. Apenas Pelé ostentou a ‘10’ na camisa e na posição em campo.

Na dissertação, foram investigadas as concepções dos conceitos de desenho concebidos nos esquemas táticos desenvolvidos pelos treinadores, a partir da proposta de comunicação empregada na organização dos atletas em campo. O desenho tático propõe a dinâmica que os jogadores participem do sistema defensivo e/ou ofensivo do jogo. “Para tanto, este trabalho teve um olhar para compreensão da representação simbólica, tomando-se como ponto de partida a investigação do seguinte questionamento: qual a contribuição do desenho na consolidação da cultura do esquema tático do futebol?”, explica Leon.  

Inovador

Zagallo na Copa de 1970

Com base no resultado do seu trabalho, o pesquisador defende que o técnico Zagallo seja reconhecido como “o mais inovador e competente treinador do século XX, pois conseguiu treinar e articular uma equipe, que em menos de três meses de treinamento, conquistou a Copa do Mundo de 70”. Leon argumenta que o Brasil “apresentando um futebol de alto nível, com uma equipe que era vaiada nos últimos amistosos com o ex-treinador João Saldanha”. Leon Vanderley lembra ainda das criticas da imprensa esportiva, que colocava em dúvidas até mesmo a condição física e técnica do principal atleta do país, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Esta pesquisa foi motivada por vários fatores: identificar a finalidade dos esquemas táticos do futebol; investigar os desenhos e imagens que esses esquemas táticos possibilitam por meio da linguagem sonora e visual; analisar quais os parâmetros para definição do desenho do esquema tático do futebol; além de analisar as percepções dos atletas acerca da definição dos esquemas táticos e como eles se apropriam dessas linguagens supracitadas para compor o desenho do jogo.

Vivencia no futebol

Leon vivencia futebol e desenho desde a infância

Jornalista por formação, o mestre Leon Vanderley é filho de um ex-jogador do futebol profissional, que atuou no Ypiranga da Bahia na década de 60, e pai de um atleta desta modalidade esportiva, o desenho e o esporte sempre estiveram presentes na vida deste pesquisador, uma vez que, quando criança realizava desenhos de trios elétricos do carnaval da Bahia e na juventude, após concluir um curso Técnico em Edificações, elaborava desenhos arquitetônicos e topográficos. Atualmente, é ex-diretor da divisão de base do Fluminense de Feira de Santana e faz parte do conselho deliberativo deste clube, além de atuar no radiojornalismo como comentarista esportivo.


JB Cardoso

Jornalista e escritor, nascido no Rio Grande do Sul e radicado na Bahia, escreve sobre quase todas as editorias, preferindo sempre contar histórias. Viciado em informação, faz dela um meio de vida. Casado com Thábatta Lorena e pai de Pilar e Cléo.