Em dia histórico, jogadores da NBA boicotam rodada dos Playoff em protesto contra o racismo

Todo mundo se senti enriquecido quando lê um livro antigo, assisti um documentário ou mesmo escuta uma boa história de eventos importantes do passado, mas também é importante reconhecer quando a história está acontecendo bem na nossa frente.

Na última quarta feira (26) de agosto de um 2020 que entrará para história por diversos motivos, os jogadores de basquete da NBA (National Basketball Association) boicotaram os jogos dos Playoffs que estavam marcados, em protesto contra a violência policial a comunidade negra nos EUA.

A Bolha criada pela NBA para a volta dos jogos da temporada tem o objetivo de dar seguranças aos atletas e a todos envolvidos nos jogos em razão da pandemia da Covid-19, mas é um nome bem sugestivo quando falamos de verdadeiras celebridades do esporte que vivem em espécie de bolhas isolados pela fama e dinheiro, aquém do mundo real.

Isso acontece não somente com LeBron James e companhia, no futebol as grandes estrelas vivem um mundo a parte com contratos milionários e uma vida de popstar além das quatro linhas.

Essa foi bolha quebrada, ao menos na liga profissional de basquete americana.  As conversas se iniciaram com os jogadores do Boston Celtics e Toronto Raptors que fariam o primeiro jogo da seminal da conferência leste na quinta (27) e se intensificaram ao longo do dia até a decisão histórica do time do Milwaukee Bucks do astro Giannis Antetokounmp, ao anunciar que não jogariam o quinto jogo da série contra o Orlando Magic em protesto contra o ataque de um policial branco a Jacob Blake. O boicote gerou um movimento cascata e todos os jogos da rodada foram adiados.

Não foram apenas os sete tiros pelas costas de Blake, a onda de protestos na cidade de Konosha ou a morte de George Floyd que levaram a essa decisão dos jogadores, a estrutura de formação desses atletas ajuda a entender o motivo de, mesmo bem sucedidos profissionalmente, eles se envolverem com as questões sociais do país.

O Draft é o evento mais esperado no início da temporada onde os times da liga podem recrutar os jovens talentos, algo parecido com os campeonatos da categoria base no futebol. A grande maioria dos jogadores vem dos times de basquete universitários, então é bem comum você ver um astro da NBA com diploma e uma boa formação acadêmica.

 Michael Jordan estudou Geografia na Universidade da Carolina do Norte antes de se tonar o maior jogador de todos os tempos. Tim Ducan recém-aposentado e astro do San Antônio Spurs se formou em psicologia na Universidade de Wake Forst e teve até aulas de literatura chinesa.

Kareem Abdul-Jabbar o maior cestinha da liga estudou História na Universidade da Califórnia. Mais recente Stephen Curry um dos melhores jogadores dos últimos anos jogando pelo Golden State Worriors, estudou Sociologia no Davidson College.

Shaquille O´Neal tem 4 títulos de campeão da NBA e foi 3 vezes MVP em finais, além do talento na quadra é formado em ciências politicas pela Universidade da Louisiana e escreveu um doutorado em 2012 com o tema “A dualidade do humor e agressão em estilos de liderança” pela Universidade de Barry na Florida.

Essa relação universidade e esporte forma mais que atleta, cada jogador é antes de tudo um cidadão consciente do que representa na sociedade. E essa formação faz um super astro entender a força de mídia que tem uma paralização de um campeonato assistido por milhares de pessoas em todo o mundo. O poder que uma camiseta escrita “vidas negras importam” tem ao publicar uma fotografia no Instagram.

O recado que Colin Kaepernick, quarterback do futebol americano passou quando se ajoelhou em 2016 durante o hino nacional americano, e desde então nenhum time quis contrata-lo, foi o quanto cada um está disposto a perder de privilégios em nome de uma igualdade racial.

Os jogadores de basquete deram o seu recado, vão além de post ou camisetas com frases de efeito, irão boicotar os jogos se necessário e já cobram publicamente um posicionalmente mais firme da NBA.

A história está sendo escrita neste momento, em ano de eleição nos EUA o atual presidente Donald Trump escolheu mandar o exército para conter os protesto e focar sua campanha de reeleição na “ordem” condenando os saques feitas durantes algumas manifestações antirracistas.

Já ficou claro que apenas protestos e hashtags não estão funcionando e milhares de pretos e pretas estão morrendo, não apenas nos Estados Unidos, mas no Brasil e em vários lugares. As estrelas da NBA deram um recado forte para outros esportistas, o racismo está presente nos campos de futebol, nas quadras de vôlei, nas piscinas olímpicas e vem matando mais que muitos vírus. O que será escrito nos livros de história daqui para frente irá colocar em lados opostos quem lutou e se posicionou contra o preconceito e quem ficou do outro lado.


Felipe Nascimento Cruz

Paulistano, com formação em jornalismo e publicidade. Um ex jogador de futebol que acredita que a comunicação pode mudar o mundo.