Varíola e outros vírus já infectavam a humanidade há mais tempo do que se imaginava

Ossada de pessoa com varíola enterrado na Suécia entre 800 e 1050 D.C- Foto reprodução revista Nature

A pesquisa genética está reescrevendo a história de algumas doenças no mundo. A conceituada revista cientifica Nature publicou um artigo no último mês mostrando que a Varíola, doença que matou cerca de 300 milhões de pessoas no XX, já infectava o ser humano desde o ano 600 D.C.

Nos livros, 2020 certamente entrará para história com o ano em que um vírus matou milhares de pessoas, parou a economia e mostrou o quanto a desigualdade social e falta de um sistema de saúde público eficaz pode ser fatal em uma pandemia.  

Nesse momento a comunidade científica do mundo inteiro, corre contra o tempo para viabilizar uma vacina contra a Covid-19 e evidência a importância de investimento na ciência para que a humanidade esteja preparada para possíveis novos surtos. E nesse cenário conhecer como outros vírus infectaram e mataram os seres humanos no passado, pode ajudar a prevenir no futuro.  

O avanço de estudos científicos está redesenhando como e quando as grandes pandemias como a que estamos vivendo agora, aconteceram. Pesquisadores descobriram que a varíola, uma doença altamente contagiosa causada pelo vírus varíola, já matava muito antes do que se imaginava.

Oficialmente a fotógrafa Jenet Parker, foi última pessoa a morrer por varíola em 1978, dois anos depois a Organização Mundial da Saúde declarou que o vírus tinha sido erradicado. As primeiras evidências da doença foram encontradas em múmias egípcias do século III, mas um novo estudo analisando o DNA viral em restos humanos antigos aponta que o vírus circulava nos seres humanos, pelo menos 1.700 anos atrás durante o período de queda do Império Romano. 

Em 2016 pesquisadores encontraram vestígios da doença em uma múmia lituana do século XVII:

“Nós mostramos que mil anos antes, durante a era Vicking, a varíola já estava bastante difundida na Europa”, diz Martin Sikora geneticista evolucionista da Universidade de Copenhagem, Dinamarca.

A varíola é o exemplo mais recente de doença analisada geneticamente, mas outros vírus também foram estudados ao longo da última década e com mudanças significativas para a ciência.

Edwad Jenner, médico considerado o inventor da vacina contra varíola aplicando a vacina em um menino em 1796.

No início deste ano, um estudo mostrou que o vírus do sarampo que, até então, as analises datam do século IX pode ter passado para os humanos no primeiro milênio antes de Cristo.

Depois de um longo estudo sequenciando DNA, em 2018 uma equipe de cientistas e pesquisadores, descobriram que a Hepatite B, uma doença infecciosa que atinge o fígado, estava infectando os humanos há 5.000 anos.

Alguns estudos também mudaram datas de doenças, mas mostrando que elas não eram tão antigas como se pensava, é caso da tuberculose, infecção causada por um vírus que geralmente ataca o pulmão. Pesquisadores da Alemanha revelaram que a doença foi encontrada em seres humanos há menos 6.000 anos e não há 12.000 como outras pesquisas apontavam.

Essas descobertas estão abalando a comunidade cientifica, segundo a historiadora Ann Carmichael da Universidade de Indiana nos EUA. E indica que as evidências de doenças como hepatite B e a peste bubônica estão associadas diretamente as grandes migrações da pré-história e podem servir de base para compreender os próximos passos dessa evolução.

Antes da revolução que o estudo com DNA trouxe eram necessário estudar esqueletos antigos em busca de sinais de doenças visíveis para entender a causa da morte. Caso a doença em questão não deixasse marca, seria quase impossível descobrir.

Com o estudo de sequenciamento de DNA pesquisadores passaram a estudar pequenos fragmentos de pessoas que morrem a milhares de anos e isso ajudou a reconstruir genomas inteiros de patógenos antigos.

Os estudos de patógenos antigos é uma forma de mostra como as doenças agridem o nosso organismo e provam como é possível à ciência identificar alguma enfermidade mesmo que elas não deixem marcas em ossadas, como é o caso da varíola.

Entender como doenças e vírus evoluíram e se disseminaram pela população antiga pode ser muito útil para tentar se proteger de novas pandemias. Segundo Lasse Vinner da Universidade de Copenhagem e um dos autores do artigo da Nature “É muito difícil prever para onde vai à evolução de um vírus, mas sabendo onde ele esteve, temos uma ideia melhor da possibilidade de variação”.


Felipe Nascimento Cruz

Paulistano, com formação em jornalismo e publicidade. Um ex jogador de futebol que acredita que a comunicação pode mudar o mundo.