20 Fevereiro 2026

Reviravolta na bolsa: Ações da Raízen disparam em meio a cenário de dívidas e injeção de capital

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O mercado financeiro costuma punir o endividamento, mas também reage rápido a qualquer sinal de salvação. A quarta-feira (28) provou isso na prática para a Raízen (RAIZ4). Em um pregão de forte otimismo, as ações da companhia de energia deram um salto expressivo de 20%, encerrando o dia cotadas a R$ 1,08. Foi um verdadeiro alívio para os investidores. O papel andava esquecido e não conseguia romper a barreira de um real há mais de três meses, marca que não era vista desde o dia 6 de outubro de 2025.

A disparada recente, no entanto, ganha contornos dramáticos quando olhamos pelo retrovisor. O cenário até poucas semanas atrás era de forte pressão. Com operações intensivas em capital, ancoradas por estruturas gigantescas como o seu principal centro de distribuição em São Paulo, a companhia viu sua dívida sair do controle. As margens de lucro no setor de combustíveis ficaram mais apertadas e o ciclo prolongado de juros altos tornou o custo do crédito quase asfixiante. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, a dívida líquida da empresa bateu nos R$ 53,4 bilhões, empurrando a alavancagem financeira para perigosas 5,1 vezes o Ebitda.

O duro golpe da Fitch e a reação do mercado

Foi justamente esse balanço fragilizado que motivou uma ação agressiva das agências de risco. A Fitch Ratings não poupou a empresa e cortou a nota de crédito da Raízen em impressionantes oito degraus. Segundo os analistas da agência, as promessas de socorro financeiro feitas pelos principais acionistas da companhia chegaram tarde demais. Na visão da Fitch, os esforços foram insuficientes para frear a deterioração da qualidade de crédito da empresa e evitar o rebaixamento.

Mas o que exatamente mudou o humor da bolsa tão de repente para justificar a alta de 20%? Basicamente, uma combinação de alívio macroeconômico e a expectativa de dinheiro novo no caixa. A curva de juros futuros começou a ceder, o que tira uma parcela considerável do peso de uma dívida tão robusta. Correndo em paralelo a isso, os bastidores de Wall Street e da Faria Lima começaram a precificar rumores fortes de que a Raízen está costurando um aumento de capital bilionário. O mercado especula que a injeção fique entre 1 bilhão e 1,5 bilhão de dólares, o que daria fôlego imediato para a companhia equalizar seus passivos e reestruturar sua operação.

Readequação de ativos no Rio de Janeiro

Enquanto a engenharia financeira tenta resolver o problema do endividamento, a gestão da Raízen segue desfazendo de ativos menores para otimizar o portfólio. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) acabou de dar o sinal verde para uma dessas operações. A Bioenergia Barra, que é controlada de forma indireta pela Raízen, foi autorizada a vender a Bio Polares.

Essa unidade é uma central de minigeração de eletricidade que funciona a partir do biogás capturado no Aterro Sanitário Dois Arcos, em São Pedro da Aldeia, litoral do Rio de Janeiro. Quem assume o ativo é a GDA (GNR Dois Arcos Valorização de Biogás). A compradora faz todo o sentido estratégico para o negócio, já que atua justamente na produção de biometano a partir do gás gerado nesse mesmo aterro fluminense para venda futura. O aval antitruste para a transação foi publicado no Diário Oficial da União na própria quarta-feira, embora as duas empresas tenham preferido manter o valor do negócio sob sigilo.